Esta é a história de dois meninos magros do mato. Os irmãos Neneu e Toco moravam duas curvas depois do mundo, lugar frondoso e reservado aos de sorte. Na casa de arquitetura meticulosamente planejada pela simplicidade, quadrada, caiada e de telhado de palha, viviam ainda o pai Zé Pé de Grilo e a mãe Noquinha. Uma família pacata, daquelas que não querem mais nada a não ser permanecer de pé nesse planeta que Deus criou, mas que o Diabo alugou. Desde que o Córrego da Folha e a mangueira viçosa não secassem tudo poderia continuar daquele jeitinho temperado com a fumaça de lenha queimada no fogão.
Neneu era o mais velho. Rapazote de seus 12 anos, carcunda forjada na lida da roça, rosto de moço crescido, não tinha medo de quase nada. Toco desembuchou mais ou menos dois anos depois do irmão com seus olhos de fogo, joelho grosso e pé cascudo. Eram unha e carne, até porque Pé de Grilo era homem acabrunhado de falar pouco e Noquinha era mãe de cuidar, mas não de ninar. Os dois se uniram naquele jogo complicado de mergulhar no mundo, de esburacar o chão duro da vida.
Os moleques faziam de tudo nos 10 palmos de terra comprados com suor e pagos com pólvora. Negociante que não honra o fio de bigode recebe em troca duas coisas: dinheiro, entregue à família pra evitar necessidade, e chumbo, para o mundo não passar vergonha além da conta, era a guia de Pé de Grilo.
As tarefas de Neneu e Toco eram tratar e curar o gado, cuidar da capineira, bater o pasto, envenenar formiga intrometida e brincar até não querer mais. Meio dia de trabalho, uma vida de diversão mansa. Passatempo naquele recanto era pescar lagartixa e lambari, desembestar com cavalo, chupar cana, laranja e jabuticaba, nadar no ribeirão, cultivar bicho-de-pé, contar vagalume e fazer sombra na lamparina. Tapa tinha de vez em quando, nada que uma vaca atolada preparada depois da missa de domingo celebrada lá na Capoeira Alta não sarasse.
Mas todo dia 20 a coisa apertava. A suadeira desencanada pelo medo empapuçava os lençóis brancos dos meninos. Era um diacho. Coisa que seca a boca é ter dia certo pra correr. Neneu sempre acordava primeiro, chamava Toco e perguntava se o embornal estava pronto. Noquinha nem ligava mais, bacuri jacu não tem emenda, excomungava. Pé de Grilo pouco se importava, pois já se acostumara à cena de ver os dois levantando poeira feito boi ladrão. E não dava outra.
Assim que o ronco soava lá no alto do Morro do Céu, Neneu e Toco partiam em disparada. Com o embornal lotado de broa de fubá e rosquinha de amoníaco, sustância para o dia, seguiam os dois mais rápidos que relâmpago em tempestade. Haja fôlego, e gritaria, e tropeção, e estrepe fincado na sola do pé.
Do alto da casinha de madeira construída na mangueira, árvore fincada na Grota do Paraíso, a meia légua da entrada da cozinha, os dois espiavam a besta branca descendo morro, vencendo subida, saltando lama, rangendo nervosa. Cruz credo, soltavam Neneu e Toco em uníssono. Os meninos não entendiam como os pais tinham coragem de enfrentar o bicho doido.
Eles sempre imaginavam que aquele animal desconhecido fosse comer Noquinha e Pé de Grilo e cuspi-los numa baixada bem longe. Afinal, toda vez que chegava ela abria a boca de lado e de lá escorria um sujeito.
Passavam-se horas e horas e os moleques olhavam de distância segura. O roteiro era o mesmo. Pé de Grilo ia para o curral, laçava dois bois, os matava com machadadas certeiras na testa, descarnava-os e entupia a boca de trás da besta branca. Neneu e Toco nunca conseguiram entender o motivo de aquela criatura cuspir por uma boca e engolir com a outra. Só tinham certeza que era coisa do Demo.
Lá pelas duas da tarde, depois que tudo já havia terminado, inclusive a broa e as rosquinhas de amoníaco, voltavam os dois meninos para casa, ainda ressabiados, porém aliviados. O que importava era que a besta branca tinha mais uma vez poupado os seus pais. Causava conforto a Neneu e Toco saber que teriam mais 29 dias de sossego.
E não adiantava explicar. Por nunca terem visto um automóvel na vida, nada enfiava naquelas cabeças ingênuas que aquele monstro era apenas a Toyota do açougue da cidade que vinha mensalmente comprar boi na mão de Pé de Grilo.
Nada é mais forte que a fantasia de crianças recheadas de pureza.