Baseado em fatos reais ocorridos em Rio Piracicaba. O personagem principal é morador da cidade e amigo de infância do escriba.
O batalhão de atletas estava posicionado. No ar, o cheiro da adrenalina, borrifado pelos lances de ansiedade típicos das largadas, era sentido a léguas de distância. Olhares trocados, conversas amarelas, votos de boa sorte, alongamentos fingidos, cadarços já amarrados sendo conferidos. Um roteiro ensaiado que precede eventos épicos. Dentre as centenas de heróis, um deles buscava a redenção. Era a última chance de dobrar o fracasso. A tensão transparecia no semblante de Jiló. Seus mirrados músculos ganharam o peso de rochas. “Não posso decepcionar o mundo na Corrida Rústica de São Miguel”, cobrava-se.
Seis meses antes, Jiló, filho mais novo e dengoso de Geraldo Simplício, havia disputado a Meia Maratona Internacional das Peneiras. Na ocasião, a confiança de patrocinadores, fãs, familiares e amigos esvaiu-se quando, percorridos 12,7 quilômetros, o valente tombou. Uma pisada em um cascalho de grande escala, postado em trecho de declive, causou uma torção em seu tornozelo esquerdo. As lágrimas que escorreram não minaram da dor, mas sim da interrupção de um sonho.
Levado à Mongólia, terra dos mais preparados fisioterapeutas que um dia ousaram abrir uma clínica, Jiló permaneceu, durante quatro meses, isolado e longe do afago que a fama proporcionou-lhe. As ligações telefônicas foram restringidas a 10 minutos de conversa por semana. Um homem isolado, sem internet, sem pombos-correios, sem sinais de fumaça, sem nada que pudesse tirar-lhe a concentração. O mundo precisava que o atleta se recuperasse. E rápido.
Avancemos no tempo e na perseverança. Poucos segundos antecediam a largada da Corrida de São Miguel. Jiló postou-se em um ponto neutro no mar de corredores, nem na cabeceira, muito mesmo na rabeira. Pontadas de dor ainda eram sentidas. “É hora de colocar à prova todo meu sofrimento”, desabafou consigo. O estampido foi ouvido e em seguida o trote dos atletas invadiu as ruas piracicabenses. Jiló partiu e, seguindo-o, milhares de olhares desconfiados. “Ele nunca conseguirá”, comentou Otávio, em tom de escárnio, dirigindo-se a Jefrin, que por sua vez ofereceu apenas um sorriso malicioso irrigado por uma dose.
Os grandes se escoram na sabedoria, são homens estratégicos. Jiló não partiu desembestado como outros tantos. Manteve o passo, as batidas cardíacas controladas, a mente focada. Aquele homem carregava dentro dos tênis a certeza de que era capaz. Logo no início da prova, na passagem pelo cemitério, adversários de alto gabarito avançaram e abriram metros e metros de conforto. Mauro da Cemig, Coloré, Viquinha e outros talentos do esporte não deixaram rastro. O esforço sobre-humano marcava o contorno da face de Jiló, que estava sujeito a tudo, menos a fracassar novamente.
Por ser um maratonista experiente, Jiló domou o impulso de acelerar. Sabia ele que mais cedo ou mais tarde o equilíbrio marcaria a prova. As passadas firmes seguiram a toada inicial e a camisa branca, que carregava a logomarca da MK Pantuza, ganhava, pouco a pouco, redondas manchas de suor, suco salgado que escorria pelo short de nylon azul e descansava nas meias soquete brancas, de elástico frouxo.
Ao longo do percurso, crianças arteiras zombeteavam do homem que, pouco tempo depois, distorceria a lógica e provaria a todos que o impossível é apenas uma palavra de 10 letras.
No contorno do hotel da Samitri deu-se o a guinada espetacular. Um a um, Jiló superava os agora esbaforidos concorrentes, mantendo sempre os olhos fixos no próximo metro a ser vencido. Os avanços olímpicos daquele extraterrestre deixaram todos boquiabertos. A altivez do seu trote não abria brechas para ilações: o campeão havia voltado.
Na parte final da corrida, apenas Viquinha separava Jiló da vitória. Faltavam 250 metros para a chegada e 37 para chegar ao primeiro lugar. Uma tarefa hercúlea. Jiló sabia que seu primo estava focado e preparado. Viquinha passou dois meses nos altiplanos bolivianos com o intuito de incentivar o organismo a produzir uma quantidade cavalar de hemoglobina e este foi apenas um dos treinamentos a que se submeteu.
No entanto, nada poderia impedir Jiló de alcançar a mais luminosa das glórias. A mente obstinada o transportou para o passado, ao ano de 490 a.C. Jiló bebeu o sangue de Filípides, o soldado grego que salvou seu povo correndo os 42 quilômetros que separavam Marathónas de Atenas. O corpo franzino e acanhado daquele menino nascido de Maria mostrou todo o vigor que guardava.
Faltando apenas 28 metros para linha de chegada, Viquinha foi engolido. Sem entender a situação, restou-lhe balançar a cabeça negativamente e terminar em segundo, posto honroso para os que disputam com Jiló, o fenômeno. Os hereges que duvidaram do rei agora externavam o fervor devotado aos entes históricos.
Assim que Jiló cruzou a linha de chegada, Valdecir arrancou como uma flecha da pracinha e foi ao encontro do irmão caçula, acolhendo-o em seus braços, sem conseguir conter as lágrimas. “Meu irmãozinho, meu irmãozinho”, bradava aos quatro cantos. Tetê, aquela que virá a ser a herdeira do majestoso trono esportivo esculpido pelo pai, foi entregue a Jiló.
A festa seguiu. Repórteres de todo o mundo queriam uma declaração, se possível raivosa, que contivesse desabafo, emoção, orgulho, regozijo. Algo que abalasse a ordem do planeta. Ainda exausto e bebericando uma Coquinha 250 ml, paga por Valdecir, Jiló, sem arredar o pé de sua natural maneira de ser, simplesmente disparou na direção dos microfones: “Só pagando. Nesse mundo não tem nada de graça”.
KKKKKKKKKKK!!!