Que os sinos toquem, as trombetas soem e os foguetes pipoquem: Rio Piracicaba completa mais um ano, cidade de três dígitos de existência, já na esquina do tricentenário. É história pra burro e pra gente também. O diacho é perceber que Piracity (os íntimos têm a permissão de assim chamá-la) está enroscada em um jogo de ganha e perde. Com o correr das estações, o antigo arraial alimenta-se das benesses da nova era ao mesmo tempo em que lascas insubstituíveis de patrimônio natural, histórico e social se desprendem do seu corpo.
Porém, para esta coluna, que já apresenta sinais de escoliose aguda, resolvi convocar os povos das quatro pontas da internet para que emitissem honrosas opiniões. O tal do Facebook foi acionado (baixinho aqui entre a gente, tem uma comunidade lá, Piracaba River, que está brilhando). A pergunta foi simples: o que mais incomoda em Piracity?
Por favor, não me recriminem. “Esse mala vem discutir problemas em pleno aniversário da cidade?”, já escuto os insatisfeitos dizerem. Fato é que sou como aquele tio pé no saco que, em pleno batizado do sobrinho, levanta as tretas familiares na melhor parte da festa, ou seja, quando todos estão meio zonzos. No círculo íntimo até concordo que a atitude não funciona, mas no âmbito comunitário não há ocasião melhor.
Pois bem. Recebi um turbilhão de respostas (569.462), escrutínio (de novo uso esse palavrão) que alcançou lugares como Ilhas Faroe, Austrália, Suécia, Turcomenistão, Sudão, Bateias e Gomes de Melo. Reuni uma equipe formada por 37 estatísticos do IBGE, que receberam instruções de Bagaleta, Onça e Fuscão para a compilação dos dados. Trabalho custoso e demorado, que levou quatro dias e cinco noites, período em que foram consumidos 346 maços de cigarro e 4.892 doses de suco de cana. O uso de softwares de última geração, cedidos gentilmente pelo FBI (e vocês nem sabiam que há um agente federal dos EUA nascido no Buraco dos Coelhos) possibilitou a leitura certeira das queixas das massas.
Revelo agora a conclusão exclusiva, saída diretamente da garganta do povo: Rio Piracicaba está inerte na economia, não tem vida noturna, não tem distribuição de renda, não é ajudada pela madrasta Vale, peca na organização de festas, não é valorizada pelos seus filhos, não promove o lazer e iniciativas socialmente responsáveis e não oferece vagas de estacionamento no Centro. Eximo-me de qualquer responsabilidade sobre as considerações acima apresentadas, apesar de concordar com todas e acrescentar outras 853, uma vez que foram obtidas mediante exaustivo esforço científico. Além disso, é a voz de Deus a apontar as feridas.
De minha diminuta e humildade parte, brado: Hoje temos ruas calçadas e asfaltadas, no entanto as vias modernas assistiram os casarões coloniais sucumbirem. Hoje temos a atividade mineradora, essencial fonte de renda local, mas os morros foram rebaixados ao posto de buracos. Hoje temos a captação de esgoto, porém o rio perdeu o viço, pois a ele é reservado apenas o papel de lata de lixo e fossa. Hoje temos o celular e a internet, ainda que movida a lenha, mas perdemos o contato estreito da rua, do banco da praça. Hoje temos o futuro, mas relegamos o passado a uma esfera distante e desimportante ante nossos olhos. “Passado: É o futuro, usado”, disse certa vez Millôr Fernandes.
De qualquer forma, comamos um docinho em comemoração ao aniversário da nossa Piracity. Não há nada que não possa ser mudado, não há futuro perdido, não há passado em vão.
E tenho dito.
*O título é um enigma que a Esfinge criou enquanto saboreávamos uma gelada no Geraldo Capivara.
A história documentada nos mostra que todo reinado tem um início e um fim. É fato. A história é escrita por pessoas que de alguma forma tomaram conhecimento dos fatos, analisaram, concluíram, e por fim (mas não terminando por ai) deram umas pinceladas para tornar o feito “um feito”. Seja como for e para quem for, tais anúncios chegam em boa hora – que reine em berço esplêndido a democracia. A nós mortais, resta ficar atento… Vamos em frente companheiro!