E o Ricardo Peixeira? Depois que a BBC comprovou que ele recebeu cerca US$ 9 milhões de suborno da ISL, empresa que até 2002 dominava o marketing e transmissão das Copas, sempre apoiada em negociatas levadas a cabo nos quartinhos da Fifa, continua no mesmo lugar, presidente da CBF, mais Rei do futebol do que Pelé, de quem é amigo. Sujeito imoral, pejorativo que dista de amoral, e irremovível. Peixeira é um ser de grande poder, que tem íntimos amigos frequentadores, assim como ele, da alta roda. Políticos, empresários, jornalistas e artistas buscam abrigo e prestígio no guarda-chuva daquele que, num regime presidencialista, tornou-se ditador sem delongas ou questionamentos. No entanto, o que imprime a este homem tom majestoso é a guarda de segredos.
Os segredos alheios, arma que não falha. Em situação tão degradada como a que se encontra Ricardo, cuja nobreza se encerra no nome que compartilha com determinada dinastia monárquica que comandou a Inglaterra em épocas passadas e, certamente, mais lúdicas que a presente, encontra-se um ensinamento. Para que cresças ao molde de Peixeira, o que significa respeitar e seguir os piores ardis, é fundamental que tomes nota de variadas confidências.
É preciso que saibas atingir, chantagear e buscar vantagens valendo-se da falha alheia. Há que se aproveitar do pisão em falso do próximo ou da corruptela do distante. Caso assim procedas, serás um escroto completo e baixarás aos termos de um verme, contudo, prosperarás. Afinal, este mundo é moldado para os infames. O ensinamento é deveras antigo e os ventos insistem no contínuo sopro de tal sabedoria maldosa, cujas regras captamos inconsciente e conscientemente, algo intrínseco à vida mundana do ser humano e desumano. Por favor, que tu não ataques o escriba com impropérios, tal qual um animal louco e desgovernado que procura defender a honra, obra magnífica que nós criamos. A honra se resume a mais uma de tantas abstrações que todos pensam ser natural, apesar de muitos não respeitarem-na.
Por certo, não creio em nobres ou vilões, imaculados ou demônios, acredito apenas no homem, com toda carga de depravações e virtudes que carrega, sem nunca poder desvencilhar-se delas. O que nos faz nocivos, venenosos ao extremo, é sermos desprovidos da competência de lavrar o bem que permanece enterrado na mente, às vezes, por toda uma vida. Esta carência de vontade de descobrir as boas intenções, apesar de o inferno encontrar-se abarrotado delas, como versa o dito popular, é o que nos faz desprezíveis em incontáveis circunstâncias, como são as que viveu, vive e viverá Peixeira.
Caso venhas a ter poder, ofereço-te um conselho para que perpetue tua bonança: Muita cautela e esmero com a vida pregressa, sempre recheada de deslizes que todos os homens cometemos, quer seja na época jovial de aventuras e despreocupação com o mundo, um fruto amargo e ao mesmo tempo excitante da ingenuidade, quer seja na maturidade, por obra da vilania e ou do desejo. Na hipótese de teus pecados virem à tona, tanto por obra do desatino do destino quanto por quaisquer outros motivos, negue-os, negue-os com a mesma força com que afirmas acreditar na Lua e no Sol, no amor e no ódio, em Deus e no Paraíso, na inexistência da alma e na reencarnação. Contraditórios que somos, usemos a conjunção representada pelo “e”, ao invés da disjunção trazida pela “ou”, tendo como base os preceitos epistemológicos da lógica.
Retomando, negues teus pecados sempre e encobertes tua fraqueza, pois ela, além dos pais, irmãos e genuínos amigos, é a única substância que poderás desmascarar-te. Em tal situação, teu enfeite pode vir ao chão e espatifar-se, mesmo contra tua vontade. Peixeira não cuidou de maneira adequada dos pecados que cometera e agora está em apuros, ao menos é o que se imagina. Pensando bem, Vossa Majestade deve estar sossegado em alguma ilha quente e paradisíaca ou em um temperado país europeu, pois ele é um homem que sabe guardar segredos, assim como domina a arte de ameaçar entregá-los se se fizer necessário.
Admito sem pudor, torço para que gigantesca desgraça aconteça a ti caso escolhas caminho tão vil quanto o de Ricardo para sobreviver num mundo que é o que é, desprovido tanto de segunda chance quanto de castigo, isso depois de os pés postarem-se em posição perpendicular, paralela ou diagonal ao chão, a depender dos tendões, nervos, músculos e ossos. Geralmente, os pés que integram construções corpóreas robustas, quando endurecidas devido ao esfriamento do sangue, permanecem perpendiculares ao fundo do caixão até que sejam devoradas pelos mesmos vermes citados mais acima.
Prefiro a autenticidade, adjetivo que, como diria o mestre Alceu, é primo-irmão da sinceridade, que por sua vez conduz tanto ao bem viver, à calma e ao relaxamento da mente quanto ao confronto, à angústia, à falta de saída e de seres próximos, tudo a depender do freguês.
Tenho dito e peço perdão pelo costume de alongar-me no discurso que eu próprio tenho extrema dificuldade em seguir. É bem mais aveludada a tarefa de repassar do que a de executar. Ao menos, procuro sempre diferenciar o que considero a verdade sentida daquilo que nos apresentam as palavras e ensinamentos alheios revestidos de experiência. Sigo iluminado e reforçado pelo pensamento de que não existe A verdade única, onipresente e onipotente, assim como guardo muitas dúvidas relativas a deuses, magos e camisas 10 que explodem de repente e depois aterrisam no solo dos mortais, sem contar presidentes de confederações de futebol que permanecem por mais de 20 anos no cargo.
Fato é que temos de continuar a experimentar o dia a dia. Alguns ruminam a tristeza da existência, outros regurgitam prazer e a maioria está plantada numa planície de gelo, sem a possibilidade de sentir o calor ou qualquer outra emoção que possa motivar o descobrimento, a vocação expedicionária tão essencial a qualquer um. E a maioria é assim porque caminhar no fio da navalha é atividade que encerra duas possibilidades: Ou corta-nos a sola dos pés ou deixa a ferramenta ainda mais afiada. Tudo depende de quão desconcertados e incertos são nossos passos. Certeza é que, com a lâmina de uma navalha bem amolada a suportar teu peso, estarás apto a flutuar no ar quando assim o desejar. Vão-se os medos da vida adulta e os temores fertilizados na infância. As preocupações relativas às obrigações que não nasceram contigo e que foram-te implantadas na espádua simplesmente passam a ter mais leveza, estado decorrente da menor densidade e volume que adquirem.
Peixeira caminha no fio do instrumento com o qual foi batizado, semelhante à navalha, sempre a desafiar a lei e a flutuar entre integrantes do Parlamento, Executivo e Judiciário, um mau uso da coragem da qual goza. A vida do comandante em chefe do futebol nacional, quiçá mundial dentre em breve, que até pouco tempo só pertencia a ele, pouco a pouco desnuda-se ante os olhos do planeta.
Para encerrar este texto, em que foi tentado o uso de uma linguagem formal e impregnada de seriedade, executado à base de puro e verdadeiro impulso, e que certamente está abarrotado de erros de conjugação verbal, concordância, ortografia e todas e quaisquer regras oriundas do português, ou brasileiro, com daqui a pouco tempo há de ser rebatizada nossa língua, chego à conclusão de que tudo começou com Ricardo Peixeira, ator que se encaixa perfeitamente naquilo que escrevi e que deveria ler essas letras medíocres para que tenha a perfeita noção daqueles que o consideram uma praga. Creio que o Rei ficaria muito mais tranquilo, acomodado em uma confortável espreguiçadeira, fazendo o que mais sabe: Deitar-se e locupletar-se com o farto dinheiro do esporte nacional.