O Profeta Caído

Publicado: 16/11/2010 em Crônica


Senhoras e senhores, declaro aqui minha inaptidão para assumir o posto de profeta do Jequi. Meus botões nunca perceberam que tal obra guarda tamanha obscuridade, era insuspeita a dificuldade intrínseca à arte da antecipação do futuro. Hoje me arrependo das gargalhadas dedicadas a Mãe Dinah. Ela se colocou como a adivinha mestra do Brasil, que tem como trunfo maior a antevisão do desastre ocorrido com os Mamonas Assassinas, grupelho musical que sacudiu a mocidade do início da década de 1990.

Minhas previsões para 2010 desmoronaram. E, caso Lula não existisse, estaria fadado ao fracasso retumbante. Sim, pois só cravei em cheio a vitória de Dilma Rousseff por confiança no barbudo, êxito que, como já advertiu meu irmão, só não adivinharia quem não quisesse. E o triunfo de Dilma se deu em função de Lula, cabra que daqui em diante estará definitivamente marcado nos livros de história. Esperem pelos netos, e mesmo filhos, chegarem até vocês, em plena mesa de almoço, com o questionamento “o que esse tal de Lula fez no Brasil?”. “Coisa de doido”, respondam sem medo de errar.

O ocaso que mais causou-me constrangimento foi a falência múltipla dos órgãos da Canarinho na Copa do Mundo. Até agora não entendo o que aconteceu nos gramados sul-africanos. Se bem que, tendo Felipe Melo a comandar o meio-campo e Dunga a segurar a prancheta de comando, a derrocada já estava desenhada para os bons entendedores do esporte bretão.

Ainda na seara do ludopédio, como alguns nobres cronistas se referem ao futebol, cravei por pura paixão e loucura o Galo como campeão brasileiro. Isso sim uma aposta alta. E errada, como vimos no decorrer destes longos meses de campeonato. Ai, ai, o Galo! Quando esse esquadrão de lutadores nos dará a satisfação da conquista? Difícil prever. Em 2010, o alto investimento foi canalizado para as mesas de pôquer regadas a uísque e moçoilas desinibidas, como bem sabe o Profexô. Glórias a Dorival, que chegou, deu uma garibada na casa e, bem provável (lá vem outra previsão) tirará o Alvinegro da degola. Afinal, nas festas de fim de ano quem paga o pato não é o Galo, é o peru, não é mesmo?

Resta ainda a Fórmula 1. Carimbei Alonso, isso quando a Ferrari capengava nos circuitos, cada vez mais suntuosos, mundo afora. E não é que o espanhol chegou à última corrida com pinta de campeão? Por pouco não consigo uma média de 50% de acerto, o que já conferiria certo ar de respeito ao profeta jequizeiro*. Mas, verdade é que Alonso foi sonso, não teve carro para fustigar os adversários. E acabou vice-campeão, assim como o Cruzeiro (mais uma), na melhor das hipóteses, há de terminar o Brasileirão 2010.

Realmente, tenho de procurar uma autorizada para fazer um recall em minha bola de cristal, que é feita de acrílico paraguaio. Mas não desistirei dos palpites abalizados, que tanto contribuem para a felicidade alheia, principalmente nas gozações botequeiras.

Para não falarem que ando temeroso, arriscarei mais duas adivinhações de alto teor de dificuldade. Primeira: Em janeiro, as praias do Espírito Santo estarão entupidas de mineiros barrigudos, enfiados em seus shortinhos xadrezes, pegando jacarezinho na Praia do Morro. Segunda: Em 2010, o Rio Piracicaba continuará a passar por debaixo da ponte. E rogo aos céus para que uma enchente não aniquile mais essa adivinhação.

*Jequizeiro é o nome popular dado a quem nasce em Rio Piracicaba, minha terra natal. Narram os antigos que, em tempos longínquos, forasteiros que causavam problemas na cidade eram colocados dentro de um jequi (uma armadilha para apanhar peixes) e jogados no rio.

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