O Monstro

Publicado: 23/11/2011 em Conto

Esta é a história de dois meninos magros do mato. Os irmãos Neneu e Toco moravam duas curvas depois do mundo, lugar frondoso e reservado aos de sorte. Na casa de arquitetura meticulosamente planejada pela simplicidade, quadrada, caiada e de telhado de palha, viviam ainda o pai Zé Pé de Grilo e a mãe Noquinha. Uma família pacata, daquelas que não querem mais nada a não ser permanecer de pé nesse planeta que Deus criou, mas que o Diabo alugou. Desde que o Córrego da Folha e a mangueira viçosa não secassem tudo poderia continuar daquele jeitinho temperado com a fumaça de lenha queimada no fogão.

Neneu era o mais velho. Rapazote de seus 12 anos, carcunda forjada na lida da roça, rosto de moço crescido, não tinha medo de quase nada. Toco desembuchou mais ou menos dois anos depois do irmão com seus olhos de fogo, joelho grosso e pé cascudo. Eram unha e carne, até porque Pé de Grilo era homem acabrunhado de falar pouco e Noquinha era mãe de cuidar, mas não de ninar. Os dois se uniram naquele jogo complicado de mergulhar no mundo, de esburacar o chão duro da vida.

Os moleques faziam de tudo nos 10 palmos de terra comprados com suor e pagos com pólvora. Negociante que não honra o fio de bigode recebe em troca duas coisas: dinheiro, entregue à família pra evitar necessidade, e chumbo, para o mundo não passar vergonha além da conta, era a guia de Pé de Grilo.

As tarefas de Neneu e Toco eram tratar e curar o gado, cuidar da capineira, bater o pasto, envenenar formiga intrometida e brincar até não querer mais. Meio dia de trabalho, uma vida de diversão mansa. Passatempo naquele recanto era pescar lagartixa e lambari, desembestar com cavalo, chupar cana, laranja e jabuticaba, nadar no ribeirão, cultivar bicho-de-pé, contar vagalume e fazer sombra na lamparina. Tapa tinha de vez em quando, nada que uma vaca atolada preparada depois da missa de domingo celebrada lá na Capoeira Alta não sarasse.

Mas todo dia 20 a coisa apertava. A suadeira desencanada pelo medo empapuçava os lençóis brancos dos meninos. Era um diacho. Coisa que seca a boca é ter dia certo pra correr. Neneu sempre acordava primeiro, chamava Toco e perguntava se o embornal estava pronto. Noquinha nem ligava mais, bacuri jacu não tem emenda, excomungava. Pé de Grilo pouco se importava, pois já se acostumara à cena de ver os dois levantando poeira feito boi ladrão. E não dava outra.

Assim que o ronco soava lá no alto do Morro do Céu, Neneu e Toco partiam em disparada. Com o embornal lotado de broa de fubá e rosquinha de amoníaco, sustância para o dia, seguiam os dois mais rápidos que relâmpago em tempestade. Haja fôlego, e gritaria, e tropeção, e estrepe fincado na sola do pé.

Do alto da casinha de madeira construída na mangueira, árvore fincada na Grota do Paraíso, a meia légua da entrada da cozinha, os dois espiavam a besta branca descendo morro, vencendo subida, saltando lama, rangendo nervosa. Cruz credo, soltavam Neneu e Toco em uníssono. Os meninos não entendiam como os pais tinham coragem de enfrentar o bicho doido.

Eles sempre imaginavam que aquele animal desconhecido fosse comer Noquinha e Pé de Grilo e cuspi-los numa baixada bem longe. Afinal, toda vez que chegava ela abria a boca de lado e de lá escorria um sujeito.

Passavam-se horas e horas e os moleques olhavam de distância segura. O roteiro era o mesmo. Pé de Grilo ia para o curral, laçava dois bois, os matava com machadadas certeiras na testa, descarnava-os e entupia a boca de trás da besta branca. Neneu e Toco nunca conseguiram entender o motivo de aquela criatura cuspir por uma boca e engolir com a outra. Só tinham certeza que era coisa do Demo.

Lá pelas duas da tarde, depois que tudo já havia terminado, inclusive a broa e as rosquinhas de amoníaco, voltavam os dois meninos para casa, ainda ressabiados, porém aliviados. O que importava era que a besta branca tinha mais uma vez poupado os seus pais. Causava conforto a Neneu e Toco saber que teriam mais 29 dias de sossego.

E não adiantava explicar. Por nunca terem visto um automóvel na vida, nada enfiava naquelas cabeças ingênuas que aquele monstro era apenas a Toyota do açougue da cidade que vinha mensalmente comprar boi na mão de Pé de Grilo.

Nada é mais forte que a fantasia de crianças recheadas de pureza.

A corrida

Publicado: 11/10/2011 em Gota a Gota

Baseado em fatos reais ocorridos em Rio Piracicaba. O personagem principal é morador da cidade e amigo de infância do escriba.

O batalhão de atletas estava posicionado. No ar, o cheiro da adrenalina, borrifado pelos lances de ansiedade típicos das largadas, era sentido a léguas de distância. Olhares trocados, conversas amarelas, votos de boa sorte, alongamentos fingidos, cadarços já amarrados sendo conferidos. Um roteiro ensaiado que precede eventos épicos. Dentre as centenas de heróis, um deles buscava a redenção. Era a última chance de dobrar o fracasso. A tensão transparecia no semblante de Jiló. Seus mirrados músculos ganharam o peso de rochas. “Não posso decepcionar o mundo na Corrida Rústica de São Miguel”, cobrava-se.

Seis meses antes, Jiló, filho mais novo e dengoso de Geraldo Simplício, havia disputado a Meia Maratona Internacional das Peneiras. Na ocasião, a confiança de patrocinadores, fãs, familiares e amigos esvaiu-se quando, percorridos 12,7 quilômetros, o valente tombou. Uma pisada em um cascalho de grande escala, postado em trecho de declive, causou uma torção em seu tornozelo esquerdo. As lágrimas que escorreram não minaram da dor, mas sim da interrupção de um sonho.

Levado à Mongólia, terra dos mais preparados fisioterapeutas que um dia ousaram abrir uma clínica, Jiló permaneceu, durante quatro meses, isolado e longe do afago que a fama proporcionou-lhe. As ligações telefônicas foram restringidas a 10 minutos de conversa por semana. Um homem isolado, sem internet, sem pombos-correios, sem sinais de fumaça, sem nada que pudesse tirar-lhe a concentração. O mundo precisava que o atleta se recuperasse. E rápido.

Avancemos no tempo e na perseverança. Poucos segundos antecediam a largada da Corrida de São Miguel. Jiló postou-se em um ponto neutro no mar de corredores, nem na cabeceira, muito mesmo na rabeira. Pontadas de dor ainda eram sentidas. “É hora de colocar à prova todo meu sofrimento”, desabafou consigo. O estampido foi ouvido e em seguida o trote dos atletas invadiu as ruas piracicabenses. Jiló partiu e, seguindo-o, milhares de olhares desconfiados. “Ele nunca conseguirá”, comentou Otávio, em tom de escárnio, dirigindo-se a Jefrin, que por sua vez ofereceu apenas um sorriso malicioso irrigado por uma dose.

Os grandes se escoram na sabedoria, são homens estratégicos. Jiló não partiu desembestado como outros tantos. Manteve o passo, as batidas cardíacas controladas, a mente focada. Aquele homem carregava dentro dos tênis a certeza de que era capaz. Logo no início da prova, na passagem pelo cemitério, adversários de alto gabarito avançaram e abriram metros e metros de conforto. Mauro da Cemig, Coloré, Viquinha e outros talentos do esporte não deixaram rastro. O esforço sobre-humano marcava o contorno da face de Jiló, que estava sujeito a tudo, menos a fracassar novamente.

Por ser um maratonista experiente, Jiló domou o impulso de acelerar. Sabia ele que mais cedo ou mais tarde o equilíbrio marcaria a prova. As passadas firmes seguiram a toada inicial e a camisa branca, que carregava a logomarca da MK Pantuza, ganhava, pouco a pouco, redondas manchas de suor, suco salgado que escorria pelo short de nylon azul e descansava nas meias soquete brancas, de elástico frouxo.

Ao longo do percurso, crianças arteiras zombeteavam do homem que, pouco tempo depois, distorceria a lógica e provaria a todos que o impossível é apenas uma palavra de 10 letras.

No contorno do hotel da Samitri deu-se o a guinada espetacular. Um a um, Jiló superava os agora esbaforidos concorrentes, mantendo sempre os olhos fixos no próximo metro a ser vencido. Os avanços olímpicos daquele extraterrestre deixaram todos boquiabertos. A altivez do seu trote não abria brechas para ilações: o campeão havia voltado.

Na parte final da corrida, apenas Viquinha separava Jiló da vitória. Faltavam 250 metros para a chegada e 37 para chegar ao primeiro lugar. Uma tarefa hercúlea. Jiló sabia que seu primo estava focado e preparado. Viquinha passou dois meses nos altiplanos bolivianos com o intuito de incentivar o organismo a produzir uma quantidade cavalar de hemoglobina e este foi apenas um dos treinamentos a que se submeteu.

No entanto, nada poderia impedir Jiló de alcançar a mais luminosa das glórias. A mente obstinada o transportou para o passado, ao ano de 490 a.C. Jiló bebeu o sangue de Filípides, o soldado grego que salvou seu povo correndo os 42 quilômetros que separavam Marathónas de Atenas. O corpo franzino e acanhado daquele menino nascido de Maria mostrou todo o vigor que guardava.

Faltando apenas 28 metros para linha de chegada, Viquinha foi engolido. Sem entender a situação, restou-lhe balançar a cabeça negativamente e terminar em segundo, posto honroso para os que disputam com Jiló, o fenômeno. Os hereges que duvidaram do rei agora externavam o fervor devotado aos entes históricos.

Assim que Jiló cruzou a linha de chegada, Valdecir arrancou como uma flecha da pracinha e foi ao encontro do irmão caçula, acolhendo-o em seus braços, sem conseguir conter as lágrimas. “Meu irmãozinho, meu irmãozinho”, bradava aos quatro cantos. Tetê, aquela que virá a ser a herdeira do majestoso trono esportivo esculpido pelo pai, foi entregue a Jiló.

A festa seguiu. Repórteres de todo o mundo queriam uma declaração, se possível raivosa, que contivesse desabafo, emoção, orgulho, regozijo. Algo que abalasse a ordem do planeta. Ainda exausto e bebericando uma Coquinha 250 ml, paga por Valdecir, Jiló, sem arredar o pé de sua natural maneira de ser, simplesmente disparou na direção dos microfones: “Só pagando. Nesse mundo não tem nada de graça”.

19*

Publicado: 23/09/2011 em Gota a Gota

Que os sinos toquem, as trombetas soem e os foguetes pipoquem: Rio Piracicaba completa mais um ano, cidade de três dígitos de existência, já na esquina do tricentenário. É história pra burro e pra gente também. O diacho é perceber que Piracity (os íntimos têm a permissão de assim chamá-la) está enroscada em um jogo de ganha e perde. Com o correr das estações, o antigo arraial alimenta-se das benesses da nova era ao mesmo tempo em que lascas insubstituíveis de patrimônio natural, histórico e social se desprendem do seu corpo.

Porém, para esta coluna, que já apresenta sinais de escoliose aguda, resolvi convocar os povos das quatro pontas da internet para que emitissem honrosas opiniões. O tal do Facebook foi acionado (baixinho aqui entre a gente, tem uma comunidade lá, Piracaba River, que está brilhando). A pergunta foi simples: o que mais incomoda em Piracity?

Por favor, não me recriminem. “Esse mala vem discutir problemas em pleno aniversário da cidade?”, já escuto os insatisfeitos dizerem. Fato é que sou como aquele tio pé no saco que, em pleno batizado do sobrinho, levanta as tretas familiares na melhor parte da festa, ou seja, quando todos estão meio zonzos. No círculo íntimo até concordo que a atitude não funciona, mas no âmbito comunitário não há ocasião melhor.

Pois bem. Recebi um turbilhão de respostas (569.462), escrutínio (de novo uso esse palavrão) que alcançou lugares como Ilhas Faroe, Austrália, Suécia, Turcomenistão, Sudão, Bateias e Gomes de Melo. Reuni uma equipe formada por 37 estatísticos do IBGE, que receberam instruções de Bagaleta, Onça e Fuscão para a compilação dos dados. Trabalho custoso e demorado, que levou quatro dias e cinco noites, período em que foram consumidos 346 maços de cigarro e 4.892 doses de suco de cana. O uso de softwares de última geração, cedidos gentilmente pelo FBI (e vocês nem sabiam que há um agente federal dos EUA nascido no Buraco dos Coelhos) possibilitou a leitura certeira das queixas das massas.

Revelo agora a conclusão exclusiva, saída diretamente da garganta do povo: Rio Piracicaba está inerte na economia, não tem vida noturna, não tem distribuição de renda, não é ajudada pela madrasta Vale, peca na organização de festas, não é valorizada pelos seus filhos, não promove o lazer e iniciativas socialmente responsáveis e não oferece vagas de estacionamento no Centro. Eximo-me de qualquer responsabilidade sobre as considerações acima apresentadas, apesar de concordar com todas e acrescentar outras 853, uma vez que foram obtidas mediante exaustivo esforço científico. Além disso, é a voz de Deus a apontar as feridas.

De minha diminuta e humildade parte, brado: Hoje temos ruas calçadas e asfaltadas, no entanto as vias modernas assistiram os casarões coloniais sucumbirem. Hoje temos a atividade mineradora, essencial fonte de renda local, mas os morros foram rebaixados ao posto de buracos. Hoje temos a captação de esgoto, porém o rio perdeu o viço, pois a ele é reservado apenas o papel de lata de lixo e fossa. Hoje temos o celular e a internet, ainda que movida a lenha, mas perdemos o contato estreito da rua, do banco da praça. Hoje temos o futuro, mas relegamos o passado a uma esfera distante e desimportante ante nossos olhos. “Passado: É o futuro, usado”, disse certa vez Millôr Fernandes.

De qualquer forma, comamos um docinho em comemoração ao aniversário da nossa Piracity. Não há nada que não possa ser mudado, não há futuro perdido, não há passado em vão.

E tenho dito.

*O título é um enigma que a Esfinge criou enquanto saboreávamos uma gelada no Geraldo Capivara.

E o Ricardo Peixeira? Depois que a BBC comprovou que ele recebeu cerca US$ 9 milhões de suborno da ISL, empresa que até 2002 dominava o marketing e transmissão das Copas, sempre apoiada em negociatas levadas a cabo nos quartinhos da Fifa, continua no mesmo lugar, presidente da CBF, mais Rei do futebol do que Pelé, de quem é amigo. Sujeito imoral, pejorativo que dista de amoral, e irremovível. Peixeira é um ser de grande poder, que tem íntimos amigos frequentadores, assim como ele, da alta roda. Políticos, empresários, jornalistas e artistas buscam abrigo e prestígio no guarda-chuva daquele que, num regime presidencialista, tornou-se ditador sem delongas ou questionamentos. No entanto, o que imprime a este homem tom majestoso é a guarda de segredos.

Os segredos alheios, arma que não falha. Em situação tão degradada como a que se encontra Ricardo, cuja nobreza se encerra no nome que compartilha com determinada dinastia monárquica que comandou a Inglaterra em épocas passadas e, certamente, mais lúdicas que a presente, encontra-se um ensinamento. Para que cresças ao molde de Peixeira, o que significa respeitar e seguir os piores ardis, é fundamental que tomes nota de variadas confidências.

É preciso que saibas atingir, chantagear e buscar vantagens valendo-se da falha alheia. Há que se aproveitar do pisão em falso do próximo ou da corruptela do distante. Caso assim procedas, serás um escroto completo e baixarás aos termos de um verme, contudo, prosperarás. Afinal, este mundo é moldado para os infames. O ensinamento é deveras antigo e os ventos insistem no contínuo sopro de tal sabedoria maldosa, cujas regras captamos inconsciente e conscientemente, algo intrínseco à vida mundana do ser humano e desumano. Por favor, que tu não ataques o escriba com impropérios, tal qual um animal louco e desgovernado que procura defender a honra, obra magnífica que nós criamos. A honra se resume a mais uma de tantas abstrações que todos pensam ser natural, apesar de muitos não respeitarem-na.

Por certo, não creio em nobres ou vilões, imaculados ou demônios, acredito apenas no homem, com toda carga de depravações e virtudes que carrega, sem nunca poder desvencilhar-se delas. O que nos faz nocivos, venenosos ao extremo, é sermos desprovidos da competência de lavrar o bem que permanece enterrado na mente, às vezes, por toda uma vida. Esta carência de vontade de descobrir as boas intenções, apesar de o inferno encontrar-se abarrotado delas, como versa o dito popular, é o que nos faz desprezíveis em incontáveis circunstâncias, como são as que viveu, vive e viverá Peixeira.

Caso venhas a ter poder, ofereço-te um conselho para que perpetue tua bonança: Muita cautela e esmero com a vida pregressa, sempre recheada de deslizes que todos os homens cometemos, quer seja na época jovial de aventuras e despreocupação com o mundo, um fruto amargo e ao mesmo tempo excitante da ingenuidade, quer seja na maturidade, por obra da vilania e ou do desejo. Na hipótese de teus pecados virem à tona, tanto por obra do desatino do destino quanto por quaisquer outros motivos, negue-os, negue-os com a mesma força com que afirmas acreditar na Lua e no Sol, no amor e no ódio, em Deus e no Paraíso, na inexistência da alma e na reencarnação. Contraditórios que somos, usemos a conjunção representada pelo “e”, ao invés da disjunção trazida pela “ou”, tendo como base os preceitos epistemológicos da lógica.

Retomando, negues teus pecados sempre e encobertes tua fraqueza, pois ela, além dos pais, irmãos e genuínos amigos, é a única substância que poderás desmascarar-te. Em tal situação, teu enfeite pode vir ao chão e espatifar-se, mesmo contra tua vontade. Peixeira não cuidou de maneira adequada dos pecados que cometera e agora está em apuros, ao menos é o que se imagina. Pensando bem, Vossa Majestade deve estar sossegado em alguma ilha quente e paradisíaca ou em um temperado país europeu, pois ele é um homem que sabe guardar segredos, assim como domina a arte de ameaçar entregá-los se se fizer necessário.

Admito sem pudor, torço para que gigantesca desgraça aconteça a ti caso escolhas caminho tão vil quanto o de Ricardo para sobreviver num mundo que é o que é, desprovido tanto de segunda chance quanto de castigo, isso depois de os pés postarem-se em posição perpendicular, paralela ou diagonal ao chão, a depender dos tendões, nervos, músculos e ossos. Geralmente, os pés que integram construções corpóreas robustas, quando endurecidas devido ao esfriamento do sangue, permanecem perpendiculares ao fundo do caixão até que sejam devoradas pelos mesmos vermes citados mais acima.

Prefiro a autenticidade, adjetivo que, como diria o mestre Alceu, é primo-irmão da sinceridade, que por sua vez conduz tanto ao bem viver, à calma e ao relaxamento da mente quanto ao confronto, à angústia, à falta de saída e de seres próximos, tudo a depender do freguês.

Tenho dito e peço perdão pelo costume de alongar-me no discurso que eu próprio tenho extrema dificuldade em seguir. É bem mais aveludada a tarefa de repassar do que a de executar. Ao menos, procuro sempre diferenciar o que considero a verdade sentida daquilo que nos apresentam as palavras e ensinamentos alheios revestidos de experiência. Sigo iluminado e reforçado pelo pensamento de que não existe A verdade única, onipresente e onipotente, assim como guardo muitas dúvidas relativas a deuses, magos e camisas 10 que explodem de repente e depois aterrisam no solo dos mortais, sem contar presidentes de confederações de futebol que permanecem por mais de 20 anos no cargo.

Fato é que temos de continuar a experimentar o dia a dia. Alguns ruminam a tristeza da existência, outros regurgitam prazer e a maioria está plantada numa planície de gelo, sem a possibilidade de sentir o calor ou qualquer outra emoção que possa motivar o descobrimento, a vocação expedicionária tão essencial a qualquer um. E a maioria é assim porque caminhar no fio da navalha é atividade que encerra duas possibilidades: Ou corta-nos a sola dos pés ou deixa a ferramenta ainda mais afiada. Tudo depende de quão desconcertados e incertos são nossos passos. Certeza é que, com a lâmina de uma navalha bem amolada a suportar teu peso, estarás apto a flutuar no ar quando assim o desejar. Vão-se os medos da vida adulta e os temores fertilizados na infância. As preocupações relativas às obrigações que não nasceram contigo e que foram-te implantadas na espádua simplesmente passam a ter mais leveza, estado decorrente da menor densidade e volume que adquirem.

Peixeira caminha no fio do instrumento com o qual foi batizado, semelhante à navalha, sempre a desafiar a lei e a flutuar entre integrantes do Parlamento, Executivo e Judiciário, um mau uso da coragem da qual goza. A vida do comandante em chefe do futebol nacional, quiçá mundial dentre em breve, que até pouco tempo só pertencia a ele, pouco a pouco desnuda-se ante os olhos do planeta.

Para encerrar este texto, em que foi tentado o uso de uma linguagem formal e impregnada de seriedade, executado à base de puro e verdadeiro impulso, e que certamente está abarrotado de erros de conjugação verbal, concordância, ortografia e todas e quaisquer regras oriundas do português, ou brasileiro, com daqui a pouco tempo há de ser rebatizada nossa língua, chego à conclusão de que tudo começou com Ricardo Peixeira, ator que se encaixa perfeitamente naquilo que escrevi e que deveria ler essas letras medíocres para que tenha a perfeita noção daqueles que o consideram uma praga. Creio que o Rei ficaria muito mais tranquilo, acomodado em uma confortável espreguiçadeira, fazendo o que mais sabe: Deitar-se e locupletar-se com o farto dinheiro do esporte nacional.

Com tantas notícias sobre chuva, meu computador foi inundado e perdi tudo. O que corta o coração é ver, da parte alta da cadeira, as músicas sendo levadas pela enxurrada de dados.

Em um processo iniciado há cerca de 10 anos, gigabytes de arquivos mp3 ocuparam as encostas do HD, uma área de risco, e acabaram tragados pelo desastre. A memória estima que até 70 gigas podem ter sido dizimados. Ao sobrevoar o interior da máquina aberta, vê-se que o cenário é desolador. Montanhas de coleções soterradas se sucedem na paisagem.  Os poucos parentes que sobreviveram, nem duas dezenas de CD´s, estão empoeirados e arranhados.

Porém, o ser humano cresce em bondade quando das tragédias. Seguirei até a casa de amigos, munido apenas do pendrive doado por uma assessoria, em busca de víveres musicais. Visitarei blogs, requisitarei junto às autoridades da internet permissões para downloads.

Vida que segue. Agora é armazenar tudo de novo.

Nós, criticados.

Publicado: 16/12/2010 em Gota a Gota

Lula está prestes a deixar o governo. Impressionante é que a oposição, aliada a formadores (?) de opinião a reboque, não consegue criticar o Governo Lula, mas sim Lula. Até hoje. Não perceberam que não há como desqualificar Lula, não há espaço. Mas há defeitos mórbidos no Governo Lula, como o câmbio apreciado e a valorização desregrada de princípios que impulsionam o desenvolvimento cru. Insistem em criticar Lula, o personagem mitológico que para mim e para o Brasil de veredas é foda. Avancemos. Lula não é gênio, tampouco é desprovido. Lula é Lula e palmas. Próxima cena. Lula foi bom e apaixonante. Quem será melhor? A pergunta que a oposição não conseguiu e não consegue responder. Sem essa de Aécio, o destruidor de montanhas. O meu, o seu, o nosso ex-governador de Minas não resiste a 30 minutos de jornalismo. Aliás, ninguém da guarda articulada resistiria. Já nos ensinou a virada “civilizatória”, iniciada em 1808, que o país é tudo, mas nunca teve coragem de ser. Terra alguma foi construída por políticos. Toda sociedade provida de dignidade encontrou seu rumo naturalmente, mesmo que o natural fosse o confronto, o que não implica guerra. Nós sempre nos acostumamos à adaptação. Escravos libertos sem inserção, monarcas falidos sem dignidade, republicanos com ideais privados, pensadores domados, guerreiros sem coragem de lustrar suas espadas com o brilho da honra. Façamos diferente. Façamo-nos.

Museu de Novidades

Publicado: 30/11/2010 em Gota a Gota

À guerra. À glória. À derrota. Em três tempos, o Rio de Janeiro. Sem ilusões, sem pessimismo, sem firula. “Tá tudo dominado” até amanhã, quando tudo voltará a estar dominado. Uma passagem, como tantas outras, porém, com apoio inédito da imprensa. Só da imprensa. Não acredito no propalado “apoio social”. A classe média e alta sempre apoiou tomadas de favelas - sim, favela, pois não será com a mudança do substantivo para “comunidade” ou “aglomerado” ou “vila” que o preconceito cairá - e gosta de ver o pau quebrar, desde que longe de sua bolha de felicidade.

Quanto aos favelados, não há como saber o que pensam. Apenas aconselho a não exacerbarem o significado de quatro ou cinco aparições de quatro segundos cada, em que cidadãos se dizem satisfeitos. Isso não quer dizer que milhares de pessoas pensam o mesmo. Muitas vezes, o “povo fala”, gíria jornalística para se referir à opinião do cidadão comum sobre certo assunto, traz o que o repórter quer. Talvez os favelados estejam felizes. Ou parte deles. Ou uma pequena parte deles. Não há como saber, exceto se você for um, e, ainda sim, vicejarão controvérsias. Quem ganhava algo com o tráfico, mesmo que remédios, não deve estar satisfeito, penso eu. Quem perdeu filhos para o tráfico deve ostentar um ar de agradecimento, imagino.

Fato é que nada está vencido. Nadica de nada. Droga gera lucro grosso, repartido em toda prateleira social. O Estado, como ele próprio provou, nunca esteve submisso ao armamento pesado e à precária organização dos combatentes descamisados – a guerra é feia, até mesmo do ponto de vista estético. O Estado pode tudo, pode até mesmo não querer fazer nada. O Estado é gerido por homens e parte dos homens, principalmente os que se postam nas hordas estatais, é gerida por dinheiro. A grana aspirada pelo tráfico jorra desgovernada, passa pelo bolso carcomido da farda de um policial da ralé e desemboca nas carteira de couro italiano de políticos e autoridades de reputação ilibada. Uma das regras imutáveis da vida é que ninguém atira contra o próprio pé. Ou alguém acredita que anos e anos de negociatas e relacionamento íntimo serão enterrados assim, num passe de mágica e espetáculo?

A situação se arrasta há décadas, e se perpetuará por mais incontáveis verões. O que assistimos, estupefatos, é uma resposta ao clamor criado artificialmente pela mídia. Uma semana de manchetes, um mês de rescaldos, uma eternidade de esquecimento. Abro minha banca de apostas para os que dizem o contrário. O filme é antigo, modorrento. Mas, assim como os BBB’s da vida, que já chegam a uma dúzia ou mais, gera audiência. Nós gostamos de ver os semelhantes em apuros, sabe-se lá o motivo. Misto de genética e cultura que o amigo antropólogo Sandro Almeida poderá explicar melhor.

E preparem-se, pois várias caras novas estarão na tv daqui a alguns anos, pedindo seu voto, sustentados pela operação “bem sucedida” como prova de competência e comprometimento. Comandantes que na verdade são ajudantes de ordem de algumas cabeças pensantes. Na década de 1980, o então governador carioca Moreira Franco tinha entre seus principais apoiadores um homem do tráfico, um assecla do Comando Vermelho, que acabou executado. Ele levava os pedidos dos chefes encarcerados até o governador, reivindicações que consistiam principalmente em medidas mais suaves nos presídios. Brizola também cedeu aos pedidos vindos dos comerciantes do prazer barato. Todos negociam, não há como. Favela é voto, e quem passou a mandar na favela é o tráfico. Na política, para não ficar escandaloso, os intermediários entre os dois governos eram líderes de associações comunitárias contaminadas.

Cláudio Lembo, substituto de Alckmin no governo paulista, negociou com Marcola, à época dos atentados do PCC. E o mesmo deve ocorrer agora. Aliás, falta um personagem no enredo, Fernandinho Beira-Mar. O maior traficante do Brasil, que conta com um pedido de extradição para os EUA, o imperador do crime tupiniquim, foi deixado de fora da festa? Beira-Mar está para os integrantes do Comando Vermelho assim como Cristo está para os cristãos. Relação de admiração e respeito, e, sobremaneira, de medo. Sem a digital de Beira-Mar nada seria desencadeado. Se o foi, então ele deve se preparar, pois morrerá em breve. Seria um indicativo de que não goza mais de respeito. O único escudo que mantém um criminoso vivo é o respeito que adquire ante amigos e inimigos.

E, só pra constar, a violência em geral não é exclusividade de traficantes. Não se esqueçam dos assaltos, furtos, arrombamentos, sequestros e toda a gama de delitos que sombreiam o cotidiano. Estes continuarão e podem receber reforço dos refugiados do BOPE. A coisa é suja, manchada, e nem de longe há sabão suficiente na dispensa. Desçamos à realidade.

***Engraçado, quando da instalação das 12 UPP’s já existentes não houve guerra? Foi algo simples, os policiais apenas subiram o morro e pronto? Será que houve arranjos do tipo “tomaremos aqui e vocês sigam para lá”? Pensemos.

O Profeta Caído

Publicado: 16/11/2010 em Crônica


Senhoras e senhores, declaro aqui minha inaptidão para assumir o posto de profeta do Jequi. Meus botões nunca perceberam que tal obra guarda tamanha obscuridade, era insuspeita a dificuldade intrínseca à arte da antecipação do futuro. Hoje me arrependo das gargalhadas dedicadas a Mãe Dinah. Ela se colocou como a adivinha mestra do Brasil, que tem como trunfo maior a antevisão do desastre ocorrido com os Mamonas Assassinas, grupelho musical que sacudiu a mocidade do início da década de 1990.

Minhas previsões para 2010 desmoronaram. E, caso Lula não existisse, estaria fadado ao fracasso retumbante. Sim, pois só cravei em cheio a vitória de Dilma Rousseff por confiança no barbudo, êxito que, como já advertiu meu irmão, só não adivinharia quem não quisesse. E o triunfo de Dilma se deu em função de Lula, cabra que daqui em diante estará definitivamente marcado nos livros de história. Esperem pelos netos, e mesmo filhos, chegarem até vocês, em plena mesa de almoço, com o questionamento “o que esse tal de Lula fez no Brasil?”. “Coisa de doido”, respondam sem medo de errar.

O ocaso que mais causou-me constrangimento foi a falência múltipla dos órgãos da Canarinho na Copa do Mundo. Até agora não entendo o que aconteceu nos gramados sul-africanos. Se bem que, tendo Felipe Melo a comandar o meio-campo e Dunga a segurar a prancheta de comando, a derrocada já estava desenhada para os bons entendedores do esporte bretão.

Ainda na seara do ludopédio, como alguns nobres cronistas se referem ao futebol, cravei por pura paixão e loucura o Galo como campeão brasileiro. Isso sim uma aposta alta. E errada, como vimos no decorrer destes longos meses de campeonato. Ai, ai, o Galo! Quando esse esquadrão de lutadores nos dará a satisfação da conquista? Difícil prever. Em 2010, o alto investimento foi canalizado para as mesas de pôquer regadas a uísque e moçoilas desinibidas, como bem sabe o Profexô. Glórias a Dorival, que chegou, deu uma garibada na casa e, bem provável (lá vem outra previsão) tirará o Alvinegro da degola. Afinal, nas festas de fim de ano quem paga o pato não é o Galo, é o peru, não é mesmo?

Resta ainda a Fórmula 1. Carimbei Alonso, isso quando a Ferrari capengava nos circuitos, cada vez mais suntuosos, mundo afora. E não é que o espanhol chegou à última corrida com pinta de campeão? Por pouco não consigo uma média de 50% de acerto, o que já conferiria certo ar de respeito ao profeta jequizeiro*. Mas, verdade é que Alonso foi sonso, não teve carro para fustigar os adversários. E acabou vice-campeão, assim como o Cruzeiro (mais uma), na melhor das hipóteses, há de terminar o Brasileirão 2010.

Realmente, tenho de procurar uma autorizada para fazer um recall em minha bola de cristal, que é feita de acrílico paraguaio. Mas não desistirei dos palpites abalizados, que tanto contribuem para a felicidade alheia, principalmente nas gozações botequeiras.

Para não falarem que ando temeroso, arriscarei mais duas adivinhações de alto teor de dificuldade. Primeira: Em janeiro, as praias do Espírito Santo estarão entupidas de mineiros barrigudos, enfiados em seus shortinhos xadrezes, pegando jacarezinho na Praia do Morro. Segunda: Em 2010, o Rio Piracicaba continuará a passar por debaixo da ponte. E rogo aos céus para que uma enchente não aniquile mais essa adivinhação.

*Jequizeiro é o nome popular dado a quem nasce em Rio Piracicaba, minha terra natal. Narram os antigos que, em tempos longínquos, forasteiros que causavam problemas na cidade eram colocados dentro de um jequi (uma armadilha para apanhar peixes) e jogados no rio.

Na mesa, no bar

Publicado: 14/11/2010 em Crônica

Estava sentado na  mesa de sempre, escondida debaixo da janela que lança jatos de gordura saídos da cozinha. De tanto inalar aquele cheiro pesado, a fome é dizimada e a economia na conta é considerável. A cantina em questão não preza a sobriedade dos preços. Os cabelos ficam um pouco prejudicados, mas quem há de se importar?

À frente, duas fileiras de mesas para ser exato, três mulheres conversavam sem se preocupar com a discrição. Duas moças mais conservadas, a terceira já com saudades do tempo em que era cortejada por homens que considerava interessantes. Hoje, apenas aquele balofo enfiado em um terno apertado e desatualizado, com os cabelos empastados por alguma substância de odor desagradável, dispensava-lhe atenção.

Se bem me recordo, as moças faziam troça de um homem que não conseguiu levar uma delas ao prazer pleno. A maldade feminina suprema, exercida em público, um dos males da modernidade. Como riam e se divertiam do pobre que ousou desafiar a insaciedade da mulher experimentada.

O gordo fingia que não se interessava, eu disfarçava os olhos para não assumir minha atenção à cena, as mulheres se lixavam para o gordo e para mim. Garçom, mais uma cerveja. E um maço de cigarros. Dois dos companheiros mais ingratos. Fazemos tudo por eles e nada recebemos em troca.

O quadro já se tornava enfadonho. O gordo não se arriscaria nunca. Não aparentava dispor da mínima porção de autoconfiança. A noite daquele sujeito deveria ser uma eterna repetição. Contemplava os peitos, as coxas, as bundas, os rostos. Gravava tudo em sua cabeça redonda, leito de cursos degradantes de suor. Provável que a punheta seria a única acompanhante.

Na rua adjacente ao bar, um ônibus para. Salta um homem jovem, altivo, postura rija, cabeça erguida a mirar apenas o passo à frente, nunca o chão. Uniforme devidamente ajustado e limpo, um ser que demonstrava orgulho. Desceu, perdeu alguns segundos na análise do ambiente etílico e continuou a andar. Sua feição dirigia-nos o desprezo, como se nós, que ali estávamos, perdêssemos tempo com prazeres fúteis.

Imagino que a esposa o esperava ansiosa em casa, quem sabe filho ou filhos, quem sabe um jantar simples, mas honesto. A televisão, o descanso dos justos. Talvez até transaria com a mulher, uma transa rápida e pudica, sem o tempero da luxúria. Difícil acreditar que seriam transviados. Homens de bem se constrangem em tratar as esposas como uma putas, por isso quase sempre são vítimas de traições. O que seriam dos jornais sem as tragédias do cotidiano.

Passada a correção refletida naquele trabalhador, barulhos estridentes foram ouvidos. Dois meninos, vindos da favela ancorada dois ou três quarteirões acima, imitavam o som de sirenes. Escorriam morro abaixo de bicicleta, atingiam vertiginosa velocidade e não usavam freios, apenas impostavam o timbre de sirenes como a exigir a passagem de pedestres e demais veículos. Simplesmente mimetizavam viaturas policiais, que sempre adentravam a quebrada daquela maneira, sem pedir licença nem perdão.

Os moleques cruzaram com o trabalhador. Não, não esperem que seja narrado qualquer confronto físico. Eles desceram e o homem continuou sua caminhada rumo ao lar. Mas houve ali um conflito de realidades.

Enquanto um se mantinha grudado ao chão, tendo a responsabilidade e correção como dogmas, a esperar eternamente a recompensa por um vida seguida em linha reta, os meninos não se preocupavam em se poupar. Davam mostras de que viveriam para sempre a esperar o próximo minuto, a próxima esquina, o próximo cliente. Para os dois garotos, pouco importava se preparar para algo que não é palpável. Mais valia a adrenalina da descida que o esforço da subida.

E lá foram eles, arriscando os cascos em curvas fechadas. E lá foi o trabalhador, arriscando a satisfação em um postura de alta exigência moral.

E lá ficou o gordo, degustando uma porção de queijo pachá que engordurava os lábios, arrematando de soslaio o conteúdo de seu gozo solitário. Lá ficaram as mulheres, rindo da falta de alguém que lhes desse satisfação.

E lá fiquei eu, que nada arrisquei ou desejei. O pior de todos espécimes da narrativa.

Confabulações

Publicado: 01/11/2010 em Política

A escolha de Lula foi a escolha de parte do Brasil. Em 2010, 55 milhões de eleitores alçaram uma mulher à cadeira mais cobiçada da República, perfazendo assim a estreia feminina de fato nas hordas do poder. Infindáveis meses de campanha se passaram, bravatas campearam os discursos, acusações foram arremessadas em todas as direções. Pessoas comuns se entrincheiraram em seus bunkers de argumentos e dali, da segurança de suas posições, torpedearam a tropa inimiga. O famoso e antigo termo que melhor define a situação é chumbo trocado, de grosso calibre.

Decepcionou-me o descer das cortinas de tamanha epopeia. Do lado de cá, os cabelos armados e rigorosamente penteados de Vana – nome que julgo mais simpático, puro capricho – a refletir os flashes da vitória. Do lado de lá, a calvície de Serra a representar a aridez da derrota. Há aprendizado nos reveses, mas a decepção quase sempre arregimenta mais espaço no cercado da memória.

A derrota deveria ser excluída das disputas, de qualquer uma delas. Vigoraria apenas o triunfo. Assim, quando um indivíduo se entregasse ao desatino de lançar o próprio pescoço contra a afiada lâmina da avaliação alheia e fracassasse, não seria tratado como um derrotado, mas apenas como um dos que tentaram vencer. Doce fantasia literária.

Confesso que os 56% de “confirma” captados por Vana me colocam apreensivo. Não se trata de um problema estatístico. Eu simplesmente não sei o que esperar. É fácil supor a continuidade daquilo que vem dando resultado. No entanto, se a realidade exigir uma guinada, quem estará no timão do transatlântico? O nome da futura capitã é Dilma Vana Roussef, 62 anos, carreira invejável no serviço público, adotada pelo “Fenômeno”, dita sagaz e decidida, responsável e capacitada. Mas, quem é Dilma? Sento-me na modesta cadeira dedicada ao cidadão ordinário e aguardo os próximos atos para desferir comentários.

Ainda assim, com Dilma, o cenário a ser pintado transmite maior vivacidade. Em 2010, os tons cinzas se destacaram na passarela tucana.  Nunca esperei nada do Serra. Ele não me inspira progresso, avanço. Dilma, ao menos, me inspira o repúdio ao retrocesso.

E quais frutos desta frondosa, financeiramente falando, campanha residirão eternos nas mentes sufragistas da nação? Mais prudente seria formatar o HD cerebral para deletar os mínimos vestígios e erros de registro do programa 2010. As jornadas eleitorais de hoje abraçaram com tamanha firmeza o espetáculo e a profissionalização técnica que a naturalidade carismática foi sufocada. Os momentos caracterizados pelo “agir sem medir” eram umas das poucas brechas que permitiam aos mortais pescar fragmentos de humanidade dos candidatos, para o bem e para o mal.

Na contramão da modernidade, brindaram o distinto público, ele também bastante afeito aos barracos, com escândalos, dossiês, mísseis teleguiados e até mesmo uma bolinha de papel, que já deixou marcas mais profundas que Marina Silva e Plínio de Arruda Sampaio juntos. O Brasil é mistério. Não subestimem a criatividade brasileira, capaz de elevar a intrínseca esperteza dos sapiens a graus superiores de espanto.

Vida que segue, Lula é quem deixa o palco, Dilma é quem sobe a rampa, Serra é quem luta para não ficar na manta. Nas Minas Generais, Aécio articula, a passos de raposa, seu novo papel dentro do xadrez político da terrinha. Em breve estará definido, com exatidão de satélite, a quem caberá o papel de peão, de bispo, da rainha e do rei.

Sorte ao Brasil.

Quilômetros de Engano

Publicado: 17/08/2010 em Matérias

THOBIAS ALMEIDA

As pedaladas magras daquele senhor denunciavam uma longa e cansativa jornada. Seu corpo franzino se equilibrava na bicicleta em meio à disputa por espaço com automóveis e caminhões na BR 381. Sidnei Gomes Chacon, de 51 anos, vivia uma verdadeira saga, distante da fantasia que emoldura as grandiosas epopéias gregas. Sidnei vivia sua própria via crúcis, um herói forjado pelo duro e espinhoso cenário de um Brasil injusto.
Uma camisa preta, uma calça de pano com os fundilhos gastos, um par de botinas com os bicos descascados, duas sacolas plásticas amarradas precariamente na garupa de sua Caloi vermelha fabricada em 1980, que ele trata como Mariazinha. Isso foi o que restou àquele senhor que há 25 dias cruzava rodovias país afora, um trajeto que se iniciou em Salvador e tinha como destino São Paulo. Mas não pensem que Sidnei é um intrépido aventureiro em busca dos holofotes. Pedalar 1.979 quilômetros foi a única opção que lhe restou.
Natural de Itapecerica da Serra, região metropolitana de São Paulo, em junho ele recebeu uma oferta de trabalho. O pintor Sidnei e outras nove pessoas foram levados para Salvador por um homem chamado Carlos. Trabalhariam na construção civil. A sedução, despertada por um salário de R$ 1,2 mil, falou alto na cabeça daqueles que resolveram ganhar a vida em um local totalmente desconhecido.
Carlos pagou as passagens de ônibus e Sidnei fez questão de embarcar com sua companheira de duas rodas, motivo pelo qual foi ridicularizado pelos colegas. Guiando sua bicicleta, queria conhecer as praias da capital baiana. Porém, o destino tem seus próprios caminhos e mais tarde Mariazinha viria a ser tão importante quanto a esposa que há 11 anos se foi em decorrência de um câncer e que ainda hoje faz brotar lágrimas daqueles olhos experimentados pela vida.
Chegando a Salvador, Sidnei e seus colegas foram alojados na própria construção que ajudariam a levantar. Finos colchonetes compunham todo mobiliário destinado àqueles trabalhadores. Três refeições diárias foram acertadas pelo contratante em uma cantina próxima à obra.
Até o final do primeiro mês de serviço tudo correu bem. Vencidos os trinta dias de trabalho, Carlos não mais apareceu, o salário dos 10 empregados com ele sumiu e a cantina, também enganada, suspendeu as refeições. O proprietário da obra alegou que nada poderia fazer, pois a empreitada já havia sido paga ao responsável. Sidnei estava abandonado em uma cidade estranha ao seu mundo.
Em conjunto, os trabalhadores decidiram partir para a rua em busca de uma nova oportunidade. Perambulando pelas vielas de Salvador, encontraram apenas negativas. O sono desconfortável das ruas não proporcionava descanso, pelo contrário, aumentava o desespero. A comida vinha de maneira irregular, dia sim, dias não. Um mês de mendicância forçada.
As duas filhas de Sidnei, casadas, não mais mantinham contato com ele. O pintor não carregava nenhum contato de parentes, e de nada adiantaria se os tivesse, segundo relatou. Na realidade, era um solitário pai de família.
Partir e tentar retornar ao lar, a opção mais digna. Sidnei tinha Mariazinha. As outras nove pessoas os pés. E assim tomaram o rumo de volta, todos habitantes de um mundo de sonhos esmagados pela desonestidade.
Em Feira de Santana Sidnei foi roubado. Bandidos armados com facas sacaram-lhe tudo, inclusive Mariazinha. A bicicleta foi encontrada pela polícia pouco tempo depois. As roupas não. No percurso, ele vendeu o celular para comer. Tanto as portas do Céu quanto as do poder público foram cerradas em sua cara. Igrejas e prefeituras de diversas cidades negaram-lhe ajuda. A fé nos homens partiu-se como o mais frágil cristal. A fé em Deus ganhou proporções ainda mais robustas. Ao Senhor ele atribui a proteção ante os riscos da estrada. Pela intervenção divina, acredita, não foi picado por uma cascavel que amanheceu enrolada debaixo de sua bicicleta, ainda na divisa entre Minas e a Bahia.
Na estrada, as noites frias eram passadas nos acostamentos e em postos de combustíveis. A comida vinha em migalhas. Somente os banhos eram diários. Romances rasos à beira de rodovia também estiveram presentes em sua saga.
A necessidade de seguir adiante roubou dez quilos do corpo de Sidnei. O ponto alto de tristeza foi passar o dia dos pais acompanhado apenas pela fuligem dispersadas pelos caminhões. Não que ele aguardasse atenção das  filhas ausentes, mas em casa a esperança era sempre maior.
Suas canelas estavam machucadas, marcas de pedaladas no vácuo. Mariazinha, apesar da valentia, apresentava o desgaste natural dos anos e constantemente libertava a corrente. Ainda assim, Sidnei fugiu à tentação e resistiu a R$ 20 e um litro de pinga em troca da bicicleta. Ajudou o fato de o pintor não beber, pois em casos assim vários recorrem ao álcool para fugir da realidade.
Ele chegou a Betim muito gripado. A coriza descia de seu nariz e o fôlego escapava do peito. No domingo, parou na barreira da Polícia Rodoviária Federal da cidade em busca de água. Foi quando o avistei e conheci sua história.
Após dias de sofrimento, Sidnei encontrou a solidariedade. Houve uma movimentação de várias pessoas presentes no local. A ele foi oferecid0 um farto almoço. Vários resolveram encurtar sua jornada. O pintor foi premiado com a passagem para São Paulo. Ao desembarcarem no Terminal Rodoviário do Tietê, ele e Mariazinha ainda percorreriam mais uma hora e meia de estrada até Itapecerica da Serra.
Uma vez em seu estado natal, o pintor tomaria um banho e partiria em busca de emprego. Não tinha tempo a perder, pois os dois meses de aluguel atrasado teriam de ser quitados, R$ 360 no total. Procuraria seus direitos, assim disse. Reaver a dignidade seria uma obrigação.
Apesar de tudo que lhe aconteceu, Sidnei seguiria em frente. Porém, ostentaria um outro olhar. A Terra acabara de ganhar mais um ser desconfiado. “O ser humano no geral é ruim. Só Deus foi bom comigo”, arrematou. Talvez, depois de domingo, ele tenha mudado de ideia.

Falhou

Publicado: 05/07/2010 em Gota a Gota

As loucuras que esse mundo dá engraçam a vida. Passamos pelo melodramático corte da jugular. O imbatível exército amarelo explodiu. A desclassificação me pegou de calça curta. O time era maciço e, ainda assim, ágil, era o que demonstrava. Corpo uniforme que atacava como uma cobra, aos botes. Picada letal.

O veneno ficou conhecido, e como há sempre de acontecer, foi estudado pelos rivais.

Pulo rápido para o antídoto, antiofídico aplicada na via esquerda por duas agulhas carecas, Robben e Sneijder. Pobre Bastos, que jogou verdadeira merreca o tempo todo, toda a Copa. Fedorenta titica. Para casa e avante, e só volte quando aprender como se faz, reto, rápido, direto e direito, grandeza Copa.

Apesar deste e de alguns mais, a carenagem, a carcaça do time, era supimpa, parecia arrumadinha, brilhava até. Mas o problema era naquela pecinha do motor, coisa que só enxerga quem entende da função.

Nessa jangada, 99% dos interessados embarcaram, apesar de apenas 60% admitirem a rasteira. Fui obrigado a acreditar. A turma ganhava jogando mal. Nada mais sintomático do que seu time triunfar sendo ridículo. Dali em diante, qualquer avanço seria lucro.

A coisa caminhou, ganhou ar de teoria do futebol, das mais acanhadas, hoje sei. Acreditei de fato depois que a equipe arremessou contra meus olhos confiança. Em seguida, alguém gritou do fundo do país, apeguem-se aos resultados, e aquilo se mostrou uma força a mais. Que venham os números e nos sustentem, nós que acreditamos nessa armada!

Crédulos, esquecemos de matutar sobre o bafo quente da Copa, que queima cangote de nego mole. Será esse o azedume do caldo? Pode ser culpa do futebol ou do destino. Vou emitir a fatura meio a meio.

Bastou. Coisa de onda braba, maremoto, daí pra frente. Fenômenos tão arrasadores que viraram a popa da seleção. Homens ao mar, gritou Dunga. Salve-se quem puder, cochichou a Globo. Eu não falei?, gabou-se a ESPN. Puta merda, exclamamos.

Tão logo o pesadelo, como grifou o locutor, virou fato consumado, o último bastião de Sua Santidade caiu, a privacidade. Já com os panos desgastados, acabou por ficar nua ante o grande olho do mundo. Do confinamento total ao choro escancarado.

A falha, temperado recheio da vida. Ela posou ao lado de todos nas fotografias que sugam a tristeza dos feridos. Então era isso que eles escondiam? Os maldosos estão legitimados a indagar.

A guarda, por uma eternidade, ficou confinada, escamoteando seu passo ensaiado. Os fanáticos se concentram em metas, objetivos, e ali tínhamos um grupo de tal maneira forjado. Após meter os dedos nos olhos da imprensa e absorver outras tantas chapuletadas, restava a Dunga provar que aquilo era o certo. Algo acontecia, suspeitava-se. Era o que se podia fazer.

Não é salutar desmoronar ante a derrota. Saiam todos, o último que economize energia. Os pingos foram guinchados ao seu devido lugar. Torçamos para que em 2014 outro filme se desenrole. E que os jogadores defendam seu esforço, inútil, mas sincero.

PS: Para mim, a Copa está sensacional!!!

Billy Boy Arnold – I Was Fooled

Publicado: 02/04/2010 em Música

Radical ao Extremo

Publicado: 25/03/2010 em Crônica

Há quanto tempo não posto nada por aqui. Não tomei conhecimento certeiro do motivo, mas suponho que os neurônios que ganhei estejam num processo inexorável de bestialização. Eles, dentro de minha cachola desgastada, estão sentadinhos degustando drinks lisérgicos e não querem saber de mais nada. “Para quê abastecer esse bosta com alguma ideia?”, zombam.

Talvez seja melhor assim. Esse negócio de tagarelar, mesmo que digitalmente, começo eu a pensar, é uma tremenda besteira. E se este moribundo que vos dirige a palavra vivesse em outros tempos, naqueles em que publicar algo era tarefa para poucos escolhidos pela natureza?

Teria, sem dúvida, que me contentar com uma enxada e alguns poucos amigos a fazer-me companhia nas tabernas esfumaçadas. Ao menos, em tais casas poderia fumar tranquilão, sem que a patrulha viesse apontar seu dedo hipócrita em minha direção.

Tal desânimo, espero, é provocado pelo remanso abafado que toma conta de tudo. E lá vai chumbo. O mundo é poeira. Poeira suja, fina, tóxica, que entra pelas frestas. Grãos de insignificância que corroem vagarosamente as engrenagens.

Redes sociais o caralho, correntes pró-ambiente o caralho, ong´s o caralho, trabalho social o caralho, circuitos culturais o caralho, conversas cabeças o caralho, showzinhos o caralho, o caralho mesmo para tudo isso que está colocado. E eu não vou acrescentar nada, vou é retirar minha sacola vazia dessa feira de superficialidades.

O que este oba-oba está mudando? A paisagem é cinza, imbecil aquele que não enxerga. Ah, diriam alguns, mas você deve enxergar o outro lado, tem muita coisa boa acontecendo! Tem o caralho! O bicho está pegando com força. As mudanças positivas são frágeis, se despedaçam ante o mínimo sopro de maldade. Essa pregação barata de geração tecnológica, conectada, que troca informações, que estimula o debate, que desenvolve fóruns de discussão… Papo de cego. Repito: o bicho está pegando!

Gastam-se horas de internet, de troca de um conhecimento que, sinceramente, não é conhecimento. Revoluções virtuais são elaboradas. No entanto, colocar a mão na massa ninguém quer. Vivemos um tempo de heróis de veludo. Avançamos de costas. Cambaleamos. Adquirimos um estrabismo imperceptível que só se presta a guiar-nos numa trajetória torta.

As afirmações acima não me incomodam. De maneira alguma. O que incha as bolas de chateação é a pose. Caros, é inútil cobrir-se de perfume quando se está atolado na merda.

Interrompamos essa onda de salvação, de unidade, de querer o bem, de valorizar a consciência mais do que a verdade. Admitamos todos: queremos é nos safar. Alcançado tal objetivo, o resto é hobby. Se sobrar tempo eu me preocuparei com os famintos, com o meio ambiente, com as novidades e com os espinhos que vicejam por aí. Depois de escutar uma boa música, empaturrar-me com uma bela refeição, comprazer-me com uma demorada foda e de vislumbar belas paisagens, aí sim, pode ser que eu me preocupe com as preocupações coletivas.

Estou a nadar vigorosamente pelo pântano da modernidade. E nado com os olhos abertos, sem medo de deixá-los vermelhos. Melhor assim. Irritados, eles se fazem de desapercebidos.

Viva a boa música. Para isso, a internet prestou. Prestou também para outras coisas, como permitir que eu compartilhe esse texto, que guarda tamanho radicalismo e aversão aos costumes e trejeitos contemporâneos. Mas, como já disse, meus tempos de pose se foram. Não me importo mais em admitir que no meu playground os balancinhos estão enferrujados.

Sem Modéstia

Publicado: 31/01/2010 em Sociedade

É hora do regozijo. Leia quem tem paciência.

O 1º texto é meu, de maio de 2009. O 2º é de todos.

MATEMÁTICA PURA

Encontrei uma notícia esclarecedora que fez com que minha cabecinha oca compreendesse de uma vez por todas o motivo do alarmismo criado em torno da gripe suína. A frase escapou da boca de Ban Ki-moon, secretário-geral da ONU.

Falando para uma plateia composta por funcionários da Organização Mundial de Saúde, o nobre coreano fez arder as mentes que vez por outra evocam as teorias conspiratórias para explicar diversos aspectos de nosso mundo. Disse o distinto:  “”Parcerias com o setor privado são absolutamente vitais daqui em diante”. O contexto da frase se relaciona com a preocupação da ONU em garantir o acesso de todos a vacinas contra a gripe suína.

Antes, Ban Ki-moon se reuniu com 30 executivos de laboratórios farmacêuticos.

Para mim, isso não se configura como teoria conspiratória. É sem-vergonhice explícita!

Minha equação se constrói da seguinte maneira:

1 – A gripe é descoberta.

2 – Os alarmes da OMS são disparados um após o outro.

3 – A mídia entra no jogo, não de maneira ingênua, pois ela nunca age sem saber exatamente o que faz.

4 – As populações de todo o mundo entram em pânico, mesmo diante de números que não corroboram o perigo.

5 – É hora de se realizar os lucros. E a poderosa indústria farmacêutica, que adota práticas que envergonhariam até mesmo o Demo (não o partido, pois esse não se envergonha com nada), escancara a boca exibindo um singelo sorriso químico.

A equação está pronta. E como sempre, seu resultado é positivo só para um lado

QUEM É O “DOUTOR GRIPE” QUE FEZ VOCÊ PERDER O SONO

Atualizado em 18 de janeiro de 2010 às 09:58 | Publicado em 17 de janeiro de 2010 às 23:02

Gripe A:

OMS sob suspeita de corrupção

No site O Diário.info

Depois de umas férias informativas sobre a gripe A H1N1, que mais parece ter sido determinado para permitir a concentração de milhares e milhares de pessoas nos centros comerciais para as compras natalícias, regressaram aos media as recomendações do ministério da Saúde e as notícias sobre a Gripe A, algumas provocadoras de algum alarme. Tudo isto num momento em que reaparecem as críticas e aparece a suspeita de a corrupção já ter chegado à Organização Mundial de Saúde (OMS).

por F. William Engdahl* – 05.01.10

Durante o decurso deste ano, o parlamento da Holanda [1] manteve suspeitas sobre o famoso Dr. Osterhaus e iniciou uma investigação por conflito de interesses e má administração. Fora da Holanda e da comunicação social dessa nação, só umas poucas linhas foram publicadas na respeitável revista britânica Science, mencionando a sensacional investigação sobre os negócios do Dr. Osterhaus.

Não se questionavam nem as referências de Osterhaus, nem os seus conhecimentos da sua especialidade. O que se põe em causa, como assinalava num simples comunicado a revista Science, é a independência da sua opinião pessoal no tocante à pandemia da gripe A. Referindo-se ao Dr.Osterhaus, a revista Science publicava as seguintes linhas na sua edição de 18 de Outubro de 2009:

“Na Holanda, durante os últimos seis meses, era difícil ligar a televisão sem ver aparecer o célebre caçador de vírus Albert Osterhaus e ouvi-lo falar da pandemia da gripe A. Pelo menos, era isso que se promovia. Osterhaus era o Senhor Gripe, o diretor de um laboratório, internacionalmente conhecido, no Centro Médico da Universidade Erasmo de Roterdã. Todavia, a sua reputação decaiu rapidamente a semana passada, quando surgiu a referência a uma série de suspeitas sobre o seu desejo de incentivar o temor sobre a pandemia, a fim de favorecer os interesses do seu próprio laboratório na elaboração de novas vacinas. No momento em que a Science era impressa, a Segunda Câmara do Parlamento da Holanda anunciava também que o assunto será objeto de um debate urgente”. [2]

No dia 3 de novembro, sem sair completamente incólume, Osterhaus conseguiu evitar prejuízos. No site da revista Science, um dos blogus informava: “A Segunda Câmara do Parlamento da Holanda rejeitou hoje uma moção que exigia que o governo rompesse todo o vínculo com o virólogo Albert Osterhaus do Centro Médico da Universidade Erasmo de Roterdã, que é objeto de acusações por conflito de interesses como conselheiro governamental. Por outro lado, o Ministro da Saúde Ab Klink anunciava na mesma altura uma lei [3] para a transparência do financiamento da investigação, que obrigará os cientistas a revelar os vínculos financeiros que mantém com empresas privadas”. [4]

Num comunicado difundido através do site do Ministério da Saúde na internet, o ministro Klink, de que se sabe que é amigo pessoal de Osterhaus [5], afirmava posteriormente que este último não era mais do que muitos outros conselheiros do ministério para as questões relacionadas com as vacinas da gripe A H1N1. O ministro informou também estar “informado dos interesses financeiros de Osterhaus [6] que, segundo o próprio ministro, não tem nada de extraordinário, apenas o progresso da ciência e da saúde pública”. Pelo menos, isso era o que se pensava.

Uma análise mais profunda do processo Osterhaus permite antever que esse virólogo holandês, de fama internacional, poderá ser o eixo de um golpe de vários bilhões montado em torno do risco de uma pandemia. Seria o caso de um sistema fraudulento, em que as vacinas, não submetidas aos processos necessários de teste, teriam sido utilizadas em seres humanos, o que implicaria o risco – o que já aconteceu – de provocar sequelas sérias, como paralisias graves e, inclusive, a morte.

O embuste dos excrementos das aves

Albert Osterhaus não é um indivíduo qualquer. Trata-se de um cientista que desempenhou um papel nas grande ondas de pânico que se desencadearam devido à aparição de vírus, desde as mortes misteriosas imputadas à SARS (Síndrome Respiratória Aguda Grave) em Hong Kong, onde a atual diretora geral da OMS, Margaret Chan, promoveu a sua carreira como responsável pela saúde pública a nível local.

Segundo a sua biografia oficial na Comissão Europeia, em abril de 2003, em pleno apogeu do pânico provocado pela SARS, Osterhaus foi contratado para participar nas investigações sobre os casos de infecções respiratórias que, naquele momento, eram cada vez mais frequentes em Hong Kong. A informação da União Europeia dizia o seguinte: “Demonstrou, de novo, o seu talento em reagir rapidamente perante situações graves. Em três semanas provou que esta enfermidade é provocada por um coronavirus recentemente descoberto que contamina gatos, morcegos e outros animais carnívoros”. [7]

Posteriormente, quando se deixou de falar dos casos de SARS, Osterhaus dedicou-se a outra coisa, à tarefa de dar envergadura mIdiática aos perigos daquilo que ele chamava a gripe aviária H5N1. Em 1997, já havia tocado o alarme depois da morte, em Hong Kong, de uma criança de 3 anos que Osterhaus sabia que tinha estado em contato com pássaros. Osterhaus desenvolveu o seu trabalho de pesquisa na Holanda e em toda a Europa, afirmando que uma nova mutação letal da gripe se havia transmitido aos humanos e que era necessário tomarem-se medidas drásticas. Afirmava ainda que ele era o primeiro cientista em todo o mundo a demonstrar que o vírus H5N1 podia contaminar os seres humanos.[8]

Referindo-se ao perigo que representava a gripe aviária, Osterhaus declarava, numa entrevista transmitida pela BBC em outubro de 2005, que “se o vírus conseguia efetivamente mutar-se de tal forma a poder transmitir-se entre os humanos, estaríamos perante uma situação completamente diferente. Poderíamos estar no princípio de pandemia”. E acrescentava: “Existe o risco verdadeiro de que as aves disseminem o vírus por toda a Europa. É um risco real que, no entanto, ninguém pôde avaliar até agora, porque não realizamos experiências”. [9]

O vírus nunca chegou a mutar-se, todavia Osterhaus estava disposto a “realizar experiências” que seguramente trariam generosas gratificações. Para sustentar o seu cenário alarmante de pandemia e conferir-lhe certa legitimidade científica, Osterhaus e os seus ajudantes de Roterdã começaram a recolher e a congelar amostras de excrementos de pássaros. Osterhaus afirmou que, segundo os períodos do ano, todas as aves na Europa, até 30%, eram portadoras do mortífero vírus da gripe aviária H5N1. Afirmou também que as pessoas em contacto com galinhas e frangos estavam, portanto, expostas ao vírus.

Osterhaus comunicou tudo isto aos jornalistas e estes tomaram nota da sua mensagem alarmista. Perante os jornalistas, Osterhaus pôs a hipótese de que depois de ter provocado várias mortes nos antípodas asiáticos, o vírus, a que ele pusera a etiqueta de H5N1, se iria propagar até à Europa, possivelmente através das penas ou pelas entranhas das aves mortalmente infectadas. Osterhaus sustentava a tese de que as aves migratórias seriam capazes de trazer para o Ocidente o novo vírus mortal, até a regiões tão distantes [da Ásia] como a Ucrânia e a Ilha de Rugen [10]. Ele só precisava de fingir que não sabia que as aves não migram do Leste para o Oeste mas sim do Norte para o Sul.

A campanha alarmista de Osterhaus, ao redor da gripe aviária, arrancou realmente em 2003, devido à morte de um veterinário holandês que tinha adoecido. Osterhaus anunciou que a morte tinha sido provocada pelo vírus H5N1. Convenceu o parlamento holandês que exigisse o sacrifício de milhões de frangos. Contudo, não houve nenhuma outra morte provocada por uma infecção semelhante à que tinha sido atribuída à H5N1. Para Osterhaus, isto demonstrava a eficácia da campanha de sacrifícios maciços preventivos. [11]

Para Osterhaus, os dejetos das aves propagavam o vírus ao cair sobre a população e sobre as demais aves em terra. Sustentava firmemente a sua convicção de que aqueles dejetos eram o vetor que propagava a nascença mortal do vírus H5N1 a partir da Ásia.

A crescente acumulação de amostras congeladas de dejetos de aves que Osterhaus e os seus associados tinham reunido e conservado no instituto apresentava, sem dúvida, um problema. Nem uma única amostra daquelas conservadas permitiu confirmar a presença do vírus H5N1. Em 2006, por ocasião do congresso da OIE (Organização Internacional de Epizootias), atualmente denominada Organização Mundial de Saúde Animal, Osterhaus e os seus colegas da Universidade Erasmo de Roterdã, não tiveram mais remédio do que admitir que ao analisar as 100.000 amostras de matérias fecais que tão cuidadosamente haviam conservado, não tinham encontrado a menor prova do vírus H5N1. [12]

Em 2008, em Verona, durante a conferência da OMS sobre o tema A gripe aviária e o intercâmbio homem-animal, Osterhaus fazia uso da sua palavra perante seus colegas da comunidade científica, sem dúvida menos cativados do que o público não científico pelos seus incitamentos à emotividade. Admitia ele então que “no estado atual de conhecimento nada permite formular um alerta contra o vírus H5N1, nem afirmar que este possa provocar uma pandemia”. [13] Naquele momento, não obstante, o seu olhar dirigia-se já insistentemente para outras possibilidades de coincidir o seu próprio trabalho sobre as vacinas com novas possibilidades de crise pandêmica.

Gripe A e corrupção na OMS

Ao comprovar que a gripe aviária não provocava nenhuma onda de mortes — e depois das companhias Roche, que fabrica o Tamiflu, e a GlaxoSmithKline, que fabrica o Relenza, registarem lucros ascendentes de bilhões de dólares quando os governos decidiram armazenar reservas de vacinas anti-virais cuja eficácia é objeto de polêmica – Osterhaus, e os demais conselheiros da OMS, viraram os olhos para campos mais férteis.

Em abril de 2009, parecia que a sua busca fortificava quando em La Gloria, um pequeno povoado no estado mexicano de Veracruz, se diagnosticou um caso de um garoto portador da gripe então chamada «suína» ou H1N1. Com uma pressa totalmente fora do habitual, o aparelho propagandístico da Organização Mundial da Saúde, arrancou com todas as suas forças com declarações da sua diretora geral, a drª Margaret Chan, sobre a possível ameaça de uma pandemia mundial.

A senhora Chan indicou o procedimento: “Urgência de saúde pública de caráter internacional”. [14] Posteriormente, outros casos declarados em La Gloria foram apresentados num portal médico na internet como um “estranho aparecimento de infecções pulmonares e respiratórias agudas, que evoluem, convertendo-se em broncopneumonias, em alguns casos de crianças. Um habitante de La Gloria descrevia os sintomas: “Febre, tosse severa e secreções nasais muito abundantes”. [15]

Contudo, esses sintomas não carecem de sentido no contexto ambiental de La Gloria, uma das zonas de maior concentração de criação intensiva de porcos a nível mundial, cujas pocilgas pertencem principalmente ao grupo americano Smithfield. Já há meses que a população local vinha organizando manifestações junto à sede mexicana do grupo Smithfield, protestando contra as graves deficiências respiratórias provocadas pelas estrumeiras. Esta causa plausível das diversas enfermidades diagnosticadas em La Gloria não pareceu despertar o interesse de Osterhaus, nem dos demais conselheiros da OMS. Aparecia finalmente a tão esperada pandemia, aquela que o próprio Osterhaus vinha prevendo desde 2003, quando participou da avaliação da SARS na província chinesa de Guandgong.

Em 11 de janeiro de 2009, Margaret Chan anunciava que a propagação do vírus H1N1 havia alcançado o nível 6 de “urgência pand^emica”. Curiosamente, a senhora Chan anunciava nessa mesma comunicação que “segundo as informações disponíveis até hoje, uma esmagadora maioria de doentes apresenta sintomas benignos, o seu restabelecimento é rápido e total, na maioria dos casos sem recorrer a qualquer tratamento médico”. E acrescentava depois: “A nível mundial a quantidade de mortes é pouco importante, não se espera um incremento brusco e espetacular da quantidade de casos graves e mortais”.

Posteriormente, veio a saber-se que a senhora Chan tinha atuado dessa forma em consequência dos acalorados debates no seio da OMS, seguindo os conselhos do Grupo Estratégico de Consulta da OMS (SAGE, sigla correspondente a “Strategic Advisory Group of Experts”). Um dos membros do SAGE, naquele momento e ainda agora, é o nosso “Senhor Gripe”, o Doutor Albert Osterhaus.

Osterhaus não só ocupava uma posição estratégica para recomendar à OMS que declarasse a “urgência pandêmica” e para incitar ao pânico, como também era ainda o presidente de uma organização que se encontra na primeira linha no tocante a esse tema. Trata-se do Grupo Europeu de Trabalho Científico sobre a Gripe (ESWI, sigla correspondente a European Scientific Working Group on Influenza), que se define como um “grupo multidisciplinar de líderes de opinião sobre a gripe, cujo objetivo é lutar contra as repercussões de epidemia ou de pandemia gripais”. Como os seus próprios membros explicam, o ESW é – sob a direção de Osterhaus – o eixo central “entre a OMS, em Genebra, o Instituto Robert Koch em Berlim e a Universidade de Connecticut nos Estados Unidos”.

O mais significativo a respeito do ESWI é que o seu trabalho é inteiramente financiado pelos mesmos laboratórios farmacêuticos que ganham bilhões graças à urgência pandêmica, já que os anúncios que fez a OMS obrigam governos do mundo inteiro a comprar e armazenar vacinas. O ESWI recebe financiamentos provenientes dos laboratórios e distribuidores de vacinas contra o H1N1, como Baxter Vaccins, Medimmune, GlaxoSmithKline, Sanofi Pasteur e outros, entre os quais se encontra Novartis, que produz a vacina, e o distribuidor do Tamiflu, Hofmann La Roche.

Para manter essa vantagem, Albert Osterhaus, o virólogo mais importante do mundo, conselheiro oficial dos governos inglês e holandês sobre o vírus H1N1 e chefe do Departamento de Virologia do Centro Médico da Universidade Erasmo de Roterdã, fazia parte da elite da OMS reunida no grupo SAGE, ao mesmo tempo que presidia o ESWI, apadrinhado pela indústria farmacêutica. Por sua vez, o ESWI recomendou medidas extraordinárias para vacinar o mundo inteiro, considerando como elevado o risco de uma nova pandemia que, segundo diziam com insistência, podia ser comparável à aterradora gripe espanhola de 1918.

O banco JP Morgan, presente em Wall Street, estimava que, principalmente graças ao alerta de pandemia declarado pela OMS, os grandes industriais farmacêuticos, que também financiavam o trabalho do ESWI de Osterhaus, podiam acumular entre 8,5 e 10 bilhões de dólares de lucro. [16]

Por sua vez, o dr. Frederick Hayden é membro do SAGE, na OMS, e do Wellcome Trust, em Londres. É também um dos amigos mais chegados de Osterhaus. Por serviços “de consulta”, Hayden recebe, além disso, fundos da Roche e da GlaxoSmithKline, dentre outros gigantes farmacêuticos que participam no fabrico de produtos ligados à crise do H1N1.

Outro cientista britânico, o professor David Salisbury, que depende do ministério britânico de saúde, encontra-se à cabeça do SAGE na OMS e dirige, além disso, o Grupo de Consulta sobre o H1N1 na OMS. Salisbury é também um ardente defensor da indústria farmacêutica. No Reino Unido, o grupo de defesa da saúde “One Clic” acusou-o de silenciar a comprovada relação entre as vacinas e o crescimento do autismo entre as crianças, assim como a relação entre a vacina Gardasil e os diferentes casos de paralisia, incluindo mortes. [17]

No dia 28 de setembro de 2009, o professor David Salisbury, que trabalha para o Ministério de Saúde declarava: “A comunidade científica está de acordo sobre a ausência de risco no tocante à inoculação do Thimerosal (ou Thiomersal)”. Esta vacina, utilizada na Grã-Bretanha contra o H1N1, é fabricada principalmente pela GlaxoSmithKline. Contém Thimerosal, um conservante à base de mercúrio. Em 1969, como toda uma série de exames, cada vez mais numerosos, mostravam que o Thimerosal presente nas vacinas poderia ser a causa de casos de autismo entre crianças nos Estados Unidos, a American Academy of Pediatrics (Academia Americana de Pediatria) e o Public Health Service (Serviço de Saúde Pública) exigiram que [o Thimerosol] fosse retirado da composição das vacinas. [18]

Outro membro da OMS, que também manteve estreitos vínculos financeiros com os fabricantes de vacinas que se beneficiam das recomendações do SAGE, é o doutor Arnold Monto, consultor remunerado pelos fabricantes de Medimunne, Glaxo e ViroPharma. Pior ainda, nas reuniões de cientistas “independentes” que organiza o SAGE, participam “observadores”, e, entre os que se encontram – por incrível que possa parecer – estão os mesmos produtores de vacinas, GlaxoSmithKline, Novartis, Baxter e companhia. Entretanto, impõe-se a seguinte pergunta: Se supõe que o SAGE é composto pelos melhores peritos da gripe do mundo inteiro, por que é que convidam os fabricantes de vacinas para participar nas suas reuniões?

Durante o último decênio, a OMS criava as chamadas “alianças entre os setores público e privado”, com o objectivo de incrementar os fundos à sua disposição. Mas em vez de receber fundos provenientes apenas dos governos dos países membros da ONU, como estava previsto no princípio, a OMS recebe atualmente das empresas privadas cerca do dobro do orçamento que habitualmente lhe estabelece a ONU, sob a forma de bolsas e ajudas financeiras.

De que empresas privadas provêm esses fundos? Dos mesmos fabricantes de vacinas que se beneficiam de decisões oficiais como a adotada em junho de 2009 sobre a urgência pandêmica da gripe H1N1. À semelhança dos benfeitores da OMS, os grandes laboratórios têm as suas entradas em Genebra com direito a um tratamento de “portas abertas e carpete vermelho”. [19]

Numa entrevista concedida ao semanário alemão Der Spiegel, um membro da Cochrane Collaboration, uma organização de cientistas independentes que avaliam todos os estudos realizados sobre a gripe, o epidemiologista Tom Jefferson, assinalava as consequências da privatização da OMS e da comercialização da saúde, “T.Jefferson (T.J.) : […] uma das características mais surpreendentes desta gripe e de toda a telenovela a que deu lugar é que, ano após ano, há gente que emite previsões cada vez mais pessimistas. Nenhuma se cumpriu até a data, mas essas pessoas continuam a emitir previsões. Por exemplo: o que se passou com a gripe aviária que nos ia matar a todos? Nada. Contudo, isso não impede que essa gente continue a fazer as suas previsões. Às vezes, parece que há toda uma organização que tem a esperança de [ver surgir] uma pandemia.

Der Spiegel: De quem é que você fala? Da OMS?

T.J.: Da OMS e dos responsáveis da saúde pública, os virólogos e os laboratórios farmacêuticos. Eles construíram todo um sistema à volta da iminência da pandemia. Há muito dinheiro em jogo, assim como redes de influência, carreiras e instituições inteiras! Bastou uma mutação de um dos vírus da gripe para vermos toda a máquina a pôr-se em marcha”.[20]

Quando se lhe perguntou se a OMS tinha declarado a urgência pandêmica de forma deliberada com o propósito de criar um imenso mercado para as vacinas e medicamentos contra o H1N1, Jefferson respondeu:

“Não acha estranho que a OMS tenha modificado a sua definição de pandemia? A antiga definição falava de um vírus novo, de rápida propagação, para o qual não há imunidade e que provoca uma alta taxa de enfermos e de mortes. Hoje em dia, esses dois últimos parâmetros sobre as taxas de infecção foram suprimidos, e foi assim que a gripe A entrou na categoria das pandemias.[21]

Muito judiciosamente, a OMS publicava em abril de 2009 a nova definição de pandemia, a tempo de permitir à própria OMS, seguindo os conselhos provenientes, entre outros, do SAGE, do “Senhor Gripe” (aliás Albert Osterhaus) e de David Salisbury, de classificar de urgência pandêmica vários casos benignos de gripe, rebaptizada de gripe A H1N1. [22]

Em 8 de dezembro de 2009, em nota de rodapé de um artigo sobre o caráter grave ou benigno da “pandemia mundial” de H1N1, o Washington Post mencionava que “ao alcançar o seu apogeu nos Estados Unidos a segunda onda de infecção do H1N1, os principais epidemiologistas prevêem que esta epidemia poderá ser uma das mais benignas [que têm havido] desde que a medicina moderna vem documentando as epidemias da gripe”. [23]

Igor Barinov, deputado russo e presidente da Comissão de Saúde da Duma (Parlamento russo), exigiu dos representantes russos ante a OMS, acreditados em Genebra, que providenciem uma investigação oficial sobre os numerosos indícios de corrupção maciçamente aceitos pela OMS e provenientes da indústria farmacêutica.

“Fizeram-se graves acusações de corrupção contra a OMS”, afirmava Barinov, acrescentando que “deve organizar-se uma comissão internacional de investigação o mais depressa possível” [24]

NOTAS:
[1] Tweede Kamer der Staten-Generaal (Segunda Câmara dos Estados Gerais ds Holanda, corresponde à Câmara Baixa)
[2] Artigo em inglês, Martin Enserink, em “Holland, The Public Face of Flu Takes a Hit”(«Holanda, o rosto público da gripe sofre um golpe»), Science, 16 de OPutubro de 2009, Vol.326, nº5951, pp 350-351;DOI: 10.1126/science,326-350b.
[3] «Sunshine Act», referência à denominação americana das leis vinculadas à liberdade de informação.
[4] Artigo em inglês, Science, 3 de Novembro de 2008, “Roundup 11/3-The Brink Edition”.
[5] Artigo em holandês, “De Farma maffia Deel 1 Osterhaus BV”, 28 de Novembro de 2009.
[6] Artigo em holandês, Ministerie van Volksgezondheid, Welzijn en Sport, “Financiele belangen Osterhaus waren bekend Nieuwsbericht”, 30 de Setembro de 2009.
[7] Albert Osterhaus, Comissão Europeia, «Recherche».
[8] ibid.
[9] Artigo em inglês, Jane Corbin, entrevista com o Dr. Albert Osterhaus, BBC Panorama, 4 de Outubro de 2005.
[10] Artigo em alemão, Karin Steinberger, “Vogelgrippe: Der Mann mit der Vogelperspektive”, Suddeutsch Zeitung, 20 de Outubro de 2005.
[11] ibid.
[12] Artigo em alemão, “Schweinegrippe-Geldgierig Psychopath Ausloser der Pandemie?”, Polskaweb News.
[13] Artigo em inglês, Ab Osterhaus, “External factors influencing H5N1 mutation/reassortment events with pandemic potential”, OIE, 7-9 de Outubro de 2008, Verona, Itália.
[14] Artigo em inglês, “Health Advisory”, Swine Flu Overview, Abril de 2009.
[15] Artigo em Inglês, Biosurveillance, Swine Flu in Mexico, Timeline of Events, 24 de Abril de 2009.
[16] Citado no artigo em holandês de Louise Voller e Kristian Villesen, “Staerk lobbyisme bag WHO-beslutning om massevaccination”, Information, Copenhaga, 15 de Novembro de 2009.
[17] Artigo em inglês, Jane Bryant, et al, “The One Click Group Response: Prof. David Salisbury Threatens Legal Action”, 4 de Março de 2009.
[18] Professor David Salisbury citado no artigo em inglês “Swine flu vaccine to contain axed additive, Londres, Evening Standard e Gulf News, 28 de Setembro de 2009.
[19] Artigo em alemão, Bert Ehgartner, “Schwindel mit der Schweinegrippe ist die Aufregung ein Coup der Pharmaindustrie?”
[20] Tom Jefferson, entrevista com o epistemologista Tom Jefferson: «C’est toute une industrie qui espére une pandemie de grippe», Der Spiegel, 21 de Julho de 2009.
[21] ibid.
[22] Artigo em holandês, Louise Voller, Kristian Villesen, “Mystisk aendring af WHO’s definition af en pandemi”, Copenhagen Information, 15 de Novembro de 2009.
[23] Artigo em inglês, Rob Stein, “The Pandemic Could Be Mild”, Washington Post, 8 de Dezembro de 2009.
[24] Artigo em holandês “Russland fordert internationale Untersuchung” Polskanet, 5 de Dezembro de 2009.

* F. William Engdahl é analista econômico e político.

Tradução de João Manuel Pinheiro

Nota do Viomundo: Acabo de ver um breve debate na BBC britânica em que os jornalistas castigaram a cobertura irresponsável da mídia e um deles pediu uma investigação, diante do fato de que existem 50 milhões de doses de vacina desnecessárias e alguém deverá pagar a conta. No Brasil, a reportagem campeã foi de um filósofo da Folha.

Publicado: 31/01/2010 em Gota a Gota

Pobres de nós.

Outra pra sentir

Publicado: 16/01/2010 em Música

Se escutou a música abaixo, é hora dessa.

Ten Years After – I´ve Been There Too

There’s someone somewhere who can’t go on
Their life is crying, it’s all gone wrong
What can I say now to help you through
Except to say that I’ve been there too?

Your soul is aching, you can’t see it through
But time is healing each day you do
Keep looking forward, forget the past
It’s up to you now, don’t let it last

You got to wake up, shake up
You got a right to live
Shake up, don’t break up
You’ve got a lot to give

You’ll wake up one morning, you start to feel good
The sun in the blue sky looks like it should
‘Cause time is a healer, it’s strange but it’s true
So, keep looking forward, the sun will come through

You got to wake up, shake up
You got a right to live
Shake up, don’t break up
You’ve got a lot to give

Santana – Evil Ways

You’ve got to change your evil ways, baby
Before I stop lovin’ you
You’ve got to change, baby
And every word that I say is true
You got me running and hiding all over town
You got me sneaking and peeping and running you down
This can’t go on, Lord knows you got to change, baby

When I come home, baby
My house is dark and my pots are cold
You hang around, baby
With Jean and Joan and-a who knows who
I’m getting tired of waiting and fooling around
I’ll find somebody who won’t make me feel like a clown
This can’t go on, Lord knows you got to change, baby

Escuta aí

Publicado: 11/01/2010 em Música

Hound Dog Taylor & The HouseRockers – Taylor´s Rock

Escuta aí

Publicado: 10/01/2010 em Música

Gil Scott-Heron – Legend In His Own Mind